Após o encontro em que recebeu de entidades patronais e de trabalhadores a proposta de reajuste anual do
salário mínimo estadual, o governador Raimundo Colombo (PSD) concedeu entrevista sobre a crise política nacional e defendeu a convocação de
eleições para todos os cargos ainda este ano. Na proposta de Colombo, além de uma nova disputa presidencial, seriam realizadas eleições para o Congresso
Nacional, governos estaduais e Assembleia Legislativas — além das eleições municipais já previstas para outubro.O governador também defendeu a
Operação Lava-Jato e falou sobre a inclusão de seu nome em planilhas de supostas doações eleitorais da empreiteira Odebrecht. Falou, ainda, da expectativa
sobre a renegociação das dívidas dos Estados, em discussão na Câmara dos Deputados e da ação que questiona o valor de débito com a
União, pautado para quinta-feira no Supremo Tribunal Federal.
No anúncio do acordo sobre o salário mínimo estadual, o senhor falou na
necessidade de criar consensos. Acredita na possibilidade de consensos em Brasília, nessa crise política que vivemos?
O modelo brasileiro ruiu, não
acredito mais que se consiga, com as propostas existentes, evoluir. Por isso tenho defendido uma posição de fazer eleições gerais. Acho sinceramente que
nós todos precisamos ter consciência do desafio, ter a humildade de reconhecer que precisamos evoluir como sociedade e como lideranças. Teríamos que construir um
processo que não apenas mudasse as pessoas, mas mudasse o sistema. Na minha visão, tem que haver uma reestruturação completa.
Quando o
senhor fala em eleições gerais, inclui Congresso e governadores?
Congresso, governadores, todos.
Então o senhor
está disposto a abrir mão de parte do seu mandato em nome disso?
Não tenho dúvida de que seria uma coisa importante a acontecer.
É a melhor proposta para sair dessa crise que é grave e tem diversos lados. Ela tem um lado institucional, tem que mexer na Constituição, tem uma
legislação inadequada, tem uma crise ética e temos uma crise de lideranças também. Por isso precisamos ter a coragem de fazer uma coisa bem mais profunda
do que apareceu até agora.
Há duas semanas seu nome apareceu nas planilhas de supostas doações da Odebrechet. Como avalia esse
episódio?
O que me dá tranquilidade é que a empresa acusada não tem nenhuma obra em Santa Catarina, não prestou serviço,
não recebeu nenhum centavo do governo. Não há qualquer tipo de relação de propina, qualquer coisa dessa natureza, porque ela não teve nenhum
benefício. A lista tem que ser investigada. Quando você quer passar o Brasil a limpo, não pode exigir que seja só com os outros. Tem que fazer com a gente
também. Por isso proponho eleições gerais, inclusive a minha. Porque eu acho que quando você quer propor mudança, tem que aceitar o que está
acontecendo. Apoio plenamente o processo jurídico que está em curso com a Operação Lava-Jato. É uma das coisas que está contribuindo decisivamente
para esse processo de mudança. Todas as investigações terão da minha parte total apoio, para que elas ocorram. Eu me sinto tranquilo por não ter a
Odebrecht em alguma obra aqui no Estado. Acho que as investigações devem ocorrer e estou pronto para colaborar em tudo que for demandado.
Sobre a
questão da dívida pública. O STF deve julgar nesta quinta-feira o mandado de segurança de SC que questiona os valores. O senhor vai a Brasília
acompanhar?
Estou muito disposto a ir, vou avaliar isso agora. Amanhã (hoje) talvez seja votado na Câmara dos Deputados (o projeto do governo federal para
renegociação da dívida) e na quinta é o primeiro ponto da pauta do Supremo. A gente tem boa perspectiva nas duas.
Houve um
avanço na Câmara com a bancada do PT fechando questão contra as contrapartidas que a União exige para a renegociação?
Isso
favorece muito na tramitação, porque senão ia ter uma resistência insuperável. A mobilização de todos os sindicatos e segmentos atingidos era
muito grande e ela inviabiliza a tramitação do projeto. Por isso que essa flexibilização é fundamental.
Com aquelas contrapartidas,
era como se o Ministério da Fazenda passasse a tutelar os governadores?
Tiraria toda a autonomia. Claro que algumas reformas ali precisariam ser feitas, a
gente tem consciência disso. Mas na hora que impõe por lei federal, iguala situações que muitas vezes são diferentes. Em Santa Catarina, a grande maioria
já está atendida.
Naqueles termos, o senhor assinaria o acordo?
Não. Nós apostamos que muita coisa iria
modificar. Tem coisas ali que são absolutamente fora de propósito. Por exemplo, impedir de contratar funcionários por alguns anos. Estamos com nove hospitais em
construção, várias unidades prisionais, nós vamos ter que contratar. Impedir um Estado que tem capacidade de endividamento de fazer por quatro anos qualquer
financiamento, eu estaria assinando um documento que ia comprometer a próxima gestão. Seria irresponsável. Se o benefício é por dois anos (o desconto de
40% nas parcelas da dívida proposto pela União ), limite em dois (a restrição).
Mantém o otimismo no STF e no Congresso nessa
questão da dívida?
Sim. Não tenho dúvida de que no mérito, no Supremo, a gente tem a simpatia da grande maioria. A discussão
sobre se a ação pode ser mandado de segurança eu ainda não tenho ela clara. Não tenho dúvida também de que o Congresso vai aprovar. Na
Câmara esta semana e no Senado semana que vem.