Facebook Instagram X WhatsApp


| 06:54 | Saúde 5 min de leitura

Ambiente de medo e desinformação impediu pesquisa da UFPel sobre coronavírus em 50 cidades

Estudiosos foram hostilizados, detidos e até mesmo algemados

Compartilhar:
Estudiosos foram hostilizados, detidos e até mesmo algemados
O Ministério da Saúde encomendou à Universidade Federal de Pelotas uma análise semelhante à do RS em âmbito nacional - Daniela Xu / Epidemiologia UFPe
Um ambiente de medo e desinformação impediu o trabalho, em pelo menos 50 cidades brasileiras, de pesquisadores envolvidos no maior estudo populacional do mundo sobre a proliferação da covid-19. Vinculados à Universidade Federal de Pelotas (UFPel), eles foram hostilizados, detidos e até mesmo algemados enquanto tentavam medir o grau de contágio pelo coronavírus. Os ataques foram registrados em municípios de Santa Catarina, no Sul do país, a capitais como Boa Vista (RR) e Santarém (PA), no Norte.
A pesquisa conduzida pela UFPel é a mesma que, aplicada em âmbito estadual no Rio Grande do Sul, informa o avanço da pandemia entre a população gaúcha. O estudo subsidia a tomada de decisões do governador Eduardo Leite sobre eventuais medidas de flexibilização ou rigidez na quarentena.
Como não há uma política de testagem em massa no país, o Ministério da Saúde encomendou à universidade uma análise semelhante em abrangência nacional. Serão aplicados testes rápidos em quase 100 mil pessoas, em três fases distintas do estudo. Desde quinta-feira, 2 mil entrevistadores foram a campo em 133 cidades espalhadas por todos os Estados. Foi quando começaram os episódios de hostilidade.
Em Boa Vista, os pesquisadores foram algemados e levados a uma delegacia, onde permaneceram das 15h30min às 6h da manhã seguinte.  Em Santarém, a polícia apreendeu os testes. Houve registros de detenções em pelo menos outras 15 cidades: São Mateus (ES), Imperatriz (MA), Picos (PI), Patos (PB), Natal e Mossoró (RN), Crateús e Serra Talhada (CE), Rio Verde (GO), Governador Valadares (MG), Cachoeiro do Itapemirim (ES), Criciúma e Caçador (SC), Rondonópolis e Barra do Garça (MT).
Em alguns municípios, os testes foram perdidos. Os policiais colocaram o material no chão e abriram para ver o que tinha dentro. A manipulação sem cuidado nem atenção aos critérios de segurança invalidou o material.
— Esses dados estão perdidos e as cidades terão de ficar de fora da primeira fase da pesquisa. É triste. Um misto de medo, desinformação e muita fake news impediu um trabalho essencial para se entender a pandemia — comenta a diretor-geral do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari.
Ataques atrasam a conclusão
Contratado via processo seletivo pela UFPel para fazer as entrevistas, o Ibope esperava concluir os 33.250 testes da primeira fase na sexta-feira. Agora, serão necessários pelo menos mais dois dias. Segundo Márcia, o trabalho terá de ser reiniciado em 50 cidades. O estudo completo prevê a realização de mais duas etapas nas próximas semanas e já há um comunicado do governo que que deseja renovar o contrato para mais três fases.  
Conforme o reitor da UFPel, Pedro Hallal, todos os prefeitos foram informados sobre a pesquisa. Na véspera de as equipes irem a campo, o Ministério da Saúde enviou ofício aos gestores locais, com cópia às secretarias estaduais de Saúde, aos conselhos nacionais de Secretários de Saúde (Conass) e de Secretarias Municipais de Saúdes (Conasems). Além de financiada pelo governo federal, a pesquisa foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e um aviso sobre sua realização foi estampado na capa do site do ministério.  
O estudo consiste numa testagem por amostragem. Em cada cidade, os pesquisadores sorteiam o bairro, a residência e o morador que será submetido a um teste rápido. Após uma coleta de sangue na ponta do dedo, é aplicado um questionário sociodemográfico e respondem se apresentam sintomas da covid-19. O resultado do exame sai em 15 minutos. Se der positivo, todas as demais pessoas da casa também são testadas e colocadas em isolamento, com comunicado oficial às autoridades médicas.
A partir dessa amostragem, é possível, medir quantas pessoas estão infectadas no país. Uma descoberta preliminar do estudo, restrita ao avanço da pandemia em Manaus, será divulgado na noite deste domingo no programa Fantástico.
— Manaus foi uma cidade que nos ajudou muito na aplicação da pesquisa. Em Uruguaiana também, já encerramos a coleta e foi tudo bem. É importante destacar os bons exemplos – salienta Hallal.
Segundo os coordenadores do estudo, boa parte da desconfiança da população foi motiva pela disseminação de fake news em grupos de WhatsApp. Houve relatos de que a pesquisa era falsa (apenas um pretexto para que assaltantes invadissem as casas), de que os testes não haviam sido aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e de que os próprios entrevistadores poderiam ser vetor de contágio.
Além de oficial e chancelado pelas principais autoridades sanitárias do país, o estudo é baseado em testes aprovados pela Anvisa e fornecidos pelo próprio Ministério da Saúde. Todos os pesquisadores são testados e só os negativados participam do trabalho de coleta dos dados. Para ingressar nas casas, eles vestem equipamentos de proteção individual com óculos, máscara, luvas, avental e proteção para os pés. Ao fim de cada visita, o material é descartado em sacolas plásticas.
— Eu mandei e-mail para todos os prefeitos explicando como funciona o estudo e pedindo três coisas: garantia da segurança das nossas equipes, o direito à livre circulação e apoio para descarte do lixo infectado. Esses pesquisadores deveriam ter sido recebidos como heróis – destaca Márcia Cavallari.

Fonte: Gaúcha ZH

Mais notícias sobre SAÚDE
Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade
Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade