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| 05:41 | Saúde 5 min de leitura

Especialistas se dividem entre apelos e críticas à manutenção do retorno de aulas presenciais no RS

Entre médicos e educadores, não há consenso sobre a necessidade e a segurança de voltar às escolas em meio ao recrudescimento da pandemia no Estado

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Entre médicos e educadores, não há consenso sobre a necessidade e a segurança de voltar às escolas em meio ao recrudescimento da pandemia no Estado
Reprodução/Internet

Quase um ano após a interrupção das aulas presenciais no Rio Grande do Sul por conta do avanço do coronavírus, a dúvida sobre se o retorno ao ambiente escolar oferece mais riscos ou benefícios aos estudantes e educadores ainda divide especialistas. Apesar da classificação de 11 regiões em bandeira preta nesta semana, o governador Eduardo Leite determinou que as aulas da Educação Infantil e do 1º e 2º ano do Ensino Fundamental possam ser retomadas presencialmente – o que tem motivado tanto críticas quanto elogios por parte de especialistas nas áreas da saúde e da educação.

 

Para a socióloga Maria Helena Guimarães de Castro, professora e presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), o retorno às aulas presenciais é essencial para a saúde física, mental e emocional das crianças.


— Acredito que é importante o retorno dos alunos respeitando protocolos sanitários, máscara, distanciamento, salas de aula com menos alunos alternando com ensino remoto. Além de todo cuidado também com a saúde de todos que trabalham nas escolas — avalia.


Maria Helena pondera que será difícil e demorada a recuperação depois de quase um ano com escolas fechadas – e a própria transição será muito desafiadora para professores e estudantes.

 

— Será preciso um grande esforço das escolas e das famílias. A maioria dos alunos estará plenamente recuperada, pedagogicamente, somente lá pelo final de 2022. É preciso muito cuidado, foco e atenção redobrada a todos os alunos — garante a socióloga.

 

Uma pesquisa realizada pela Associação de Escolas Privadas de Educação Infantil do Rio Grande do Sul (Aepei-RS) e respondida por mais de 8 mil famílias da Capital e da Região Metropolitana registrou que 97% dos entrevistados afirmam que necessitam que seus filhos continuem frequentando diariamente a escola para poderem trabalhar. Conforme a associação, caso o modelo de distanciamento controlado do governo do Estado seja aplicado na íntegra, "crianças inocentes terão de pagar a conta por aglomerações causadas fora das escolas, privando-as do ensino presencial".

 

"Da mesma forma, a interrupção das aulas neste momento causará um retrocesso em todo processo de adaptação das crianças da primeira infância, o que pode vir a provocar sérios problemas emocionais", disse a entidade, em nota divulgada neste final de semana.


De acordo com a Aepei-RS, nos 140 dias após o retorno às aulas presenciais no ano passado, foi possível comprovar que as salas de aula não são o foco de transmissão acelerada dos casos da covid-19. Pelo contrário: a entidade sustenta que menos de 1% das crianças que frequentaram as escolas infantis em Porto Alegre se infectaram. Além disso, destacou a entidade, as instituições de ensino estariam promovendo um alento tanto às crianças quanto aos pais que necessitam, principalmente, da Educação Infantil para trabalhar com tranquilidade.

 

"Foram sete meses de confinamento e agora que puderam ser acolhidas com carinho não só por seus professores, mas também por seus pares, não seria justo interromper todo este processo novamente. O ideal é seguir o modelo europeu, que mesmo em lockdown evitaram fechar as escolas", afirma a associação.

 

Retorno em condições sanitárias e epidemiológicas


O epidemiologista da Fiocruz/Amazônia Jesem Orellana demonstra preocupação com uma situação que, a seu ver, tem sido comum: a de pais que querem o retorno das aulas para ter onde deixar seus filhos, sem se importar com sua saúde educacional e psicológica.

 

— Temos visto algumas pessoas que defendem o retorno das aulas, mas, na verdade, veem as escolas como depósito para os filhos. É uma situação complicada. O exemplo de Manaus é como uma oportunidade de reflexão. Em Manaus é comum, além das escolas, em paralelo, ter um mercado de reforço das aulas. A responsabilidade da educação é transferida a um sistema de ensino integral e paralelo — lamenta o especialista.


Para Orellana, é comum que sejam essas as pessoas exigindo o retorno e "colocando hashtag nas redes sociais" sem argumentos científicos.

 

— O retorno só pode ser feito se tiver todas as condições sanitárias e epidemiológicas, que devem ser avaliadas de forma responsável. Todos nós temos interesse no retorno das aulas presenciais com segurança. Não podemos defender um retorno preservando a economia das escolas, empresas terceirizadas e esquecendo da vida de toda a comunidade escolar — defende Orellana, comparando a situação pela qual o Amazonas passou com o atual cenário no Rio Grande do Sul.

 

Já o médico sanitarista Alexandre Chieppe defende que não seria correto esperar até que haja uma imunidade de rebanho – conceito usado por infectologistas para definir o percentual da população que teve contato com o vírus e desenvolveu imunidade à doença e, dessa forma, protegeria o restante da população – para que seja possível um retorno seguro às aulas para crianças e adolescentes. Para Chieppe, é possível que as pessoas com menor risco de infecção pela doença voltem às escolas.

 

— A discussão que tem que ser feita é a da flexibilização responsável. Temos que retomar a economia e discutir a volta responsável às aulas — afirma o médico, ressaltando o baixo risco de adoecimento e complicações em crianças por covid-19.


A infectologista pediátrica Livia Esteves lembra que o Brasil é um dos poucos países que mantiveram escolas públicas fechadas durante quase todo o ano, afetando principalmente as famílias mais vulneráveis. Os prejuízos para a infância, famílias, economia e sociedade como um todo são incalculáveis, podendo interferir na proficiência, nas capacidades e habilidades dos alunos.

 

— Dificuldade de acesso ao ensino remoto, evasão escolar e desigualdade de oportunidades, atingindo em cheio a saúde, empregabilidade e expectativa de vida dos jovens são ainda outros agravantes — define a infectologista.

 

A especialista cita como exemplo experiências internacionais que mostram que escolas que praticaram as medidas eficientes de contenção da transmissão não tiveram alta circulação do coronavírus nem impulsionaram a pandemia. Foram raros, ainda, ela explica, os surtos em escolas, exceto casos individuais, cuja contaminação, no geral, ocorreu fora da instituição de ensino.

Fonte: GZH

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