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07/04/2021 | 11:35 | Geral | Três de Maio

Autismo: uma maneira de ver o mundo com um jeito único de ser

Apae de Três de Maio atende 40 pacientes com Transtorno do Espectro Autista. Trabalho interdisciplinar, aliado com o apoio e participação da família, são a chave do sucesso no tratamento

No dia 2 de abril foi celebrado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. A data, criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007, visa conscientizar a sociedade a respeito do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e, desse modo, reduzir o preconceito existente contra os indivíduos que apresentam o transtorno.

 

O Transtorno do Espectro do Autismo é uma síndrome de origem genética e neurológica que compromete o desenvolvimento global do indivíduo. Este grupo de condições é caracterizado por algum grau de alteração do comportamento social, comunicação e linguagem, e por um repertório restrito, estereotipado e repetitivo de interesses e atividades.

 

Na Apae de Três de Maio, atualmente são atendidos 40 alunos com autismo, que recebem atendimento nas áreas da educação e da saúde, envolvendo psicólogo, neurologista, psiquiatra, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, nutricionista, assistente social e fisioterapeuta.

 

Estimulação cognitiva, manejo de comportamentos e sociabilidade são algumas das necessidades trabalhadas pelo psicólogo

A psicóloga Carina Mayer Mirowski explica que, como os atendimentos são realizados de forma individual pelos profissionais, quaisquer planos de intervenção contêm objetivos e metas que a criança precisa alcançar e é baseado em déficits avaliados para desenvolver nela habilidades funcionais para a vida.

 

“No trabalho da psicologia, precisamos saber qual é a área do cérebro que está sendo estimulada e para quê. A intervenção é realizada juntamente com o apoio familiar, sendo este sempre orientado com as atividades diárias, como, por exemplo, o manejo de comportamentos inadequados, as alterações sensoriais, orientação de pais e estimulação cognitiva”, destaca.

 

“As estimulações e demandas necessárias são realizadas no atendimento e complementadas em casa. Avaliação, estimulação cognitiva, manejo de comportamentos, comunicação, interação, aprendizagem, sociabilidade são algumas das necessidades apresentadas trabalhadas pelo aporte psicológico.”

 

Terapia ocupacional promove melhora da qualidade de vida do autista e da família

De acordo com a terapeuta ocupacional Marília Compassi Freitas, a intervenção da terapia ocupacional em pessoas com autismo busca promover habilidades nas áreas motoras das atividades de vida diária, tais como o treinamento do banheiro, vestir-se, escovar os dentes, pentear cabelos e calçar sapatos, e a percepção de competências educativas, como dizer as diferenças entre cores, formas e tamanhos,  a consciência corporal e sua relação com os outros, o brincar funcional, a resolução de problemas e habilidades sociais e a integração sensorial.  

 

“Aqui na instituição recebemos pacientes com diagnostico fechado e também os que apresentam características de TEA sem diagnóstico. Ambos os casos realizam avaliação inicial com equipe interdisciplinar e na área da terapia ocupacional, especificamente, é realizada a anamnese com os familiares ou responsáveis, para coletar dados gestacionais, do desenvolvimento, histórico familiar e quais as observações da família sobre o paciente, além da avaliação e observação dele”, esclarece.

 

Após o encerramento da avaliação de toda a equipe, é realizado o retorno à família, quando são indicados os tratamentos necessários. A partir daí o paciente passa a receber intervenção individual para estimulação semanalmente e os responsáveis recebem orientações de manejo e atividades para serem realizadas em casa.

 

“As atividades realizadas vão depender das demandas encontradas na avaliação inicial, pois após isso é traçado um plano de tratamento específico para cada paciente. O objetivo global da intervenção da terapia ocupacional é promover para a pessoa com autismo uma melhora da sua qualidade de vida, bem como da sua família. O terapeuta ajuda a introduzir, manter e melhorar as habilidades existentes para que possam ter autonomia e independência nas atividades diárias”, comenta.

 

Fonoaudiologia busca favorecer autonomia aos autistas

Tândara Marieli de Oliveira Santos, que é fonoaudióloga na Apae, explica que realiza uma avaliação fonoaudiológica inicial, por meio de entrevista com os pais, e/ou cuidadores, além de observações clínicas durante interação com o indivíduo e também escalas de rastreio que podem auxiliar na identificação de problemas específicos, além das potencialidades de cada indivíduo.

 

“As pessoas com TEA podem apresentar atraso no desenvolvimento da fala, dificuldade de expressar aquilo que sentem, pensam e desejam, ou utilizam a fala de maneira descontextualizada. Podem, também, apresentar comportamentos e falas repetitivos ou necessitar de uma comunicação alternativa para se expressar. Estes sinais podem ou não estar presentes e afetam os indivíduos de maneira particular, o que exige cuidado no estabelecimento do diagnóstico e um plano terapêutico individualizado, a partir das dificuldades presentes de cada caso”, afirma.

 

Conforme Tândara, durante o tratamento, são utilizados alguns recursos terapêuticos, originando oportunidades de aproximação com a criança. São utilizadas abordagens histórico-cultural, Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), que se trata de métodos utilizados como alternativas para a criança que ainda não desenvolveu a linguagem oral, abordagem pragmática, que tem como base o desenvolvimento e a aquisição de linguagem, e, para estimular a comunicação da criança, a Abordagem Funcional da Linguagem, quando a criança autista é induzida a se comunicar oralmente com a intenção de solicitar algo de seu interesse. Assim, as atividades são realizadas de forma que a criança tenha que interagir e se comunicar com o terapeuta.

 

“O resultado do uso conjunto destas ferramentas irá direcionar o plano terapêutico, que usualmente abraça intervenções voltadas a várias áreas do desenvolvimento e contam com o trabalho de uma equipe multiprofissional para promover maior adaptação desses indivíduos ao ambiente e, por consequência, favorecer sua autonomia e melhor qualidade de vida.”

           

Em sala de aula, atividades visam potencializar e desenvolver habilidades

“Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho. Educar é um ato de amor, de comunhão entre os homens.” Ao parafrasear Paulo Freire, a professora Marciane dos Santos Franco, que atua na Apae de Três de Maio há cinco anos, se dedicando ao trabalho e estudo de crianças autistas, explica como funcionam as aulas com os alunos com Transtorno do Espectro Autista.

 

“Procuro organizar meu plano de aula de uma forma com que o aluno se sinta seguro e confortável no ambiente e nas atividades propostas. Em um primeiro momento, apresento ao aluno uma rotina, que são a ordem das atividades propostas no decorrer do período, esclarecendo visualmente o início e o fim das atividades. Após, realizamos a desenvoltura das atividades planejadas a fim de melhorar a qualidade de vida deste aluno, potencializar as habilidades adquiridas e desenvolver as que ainda se encontram com dificuldades”, explica Marciane.

 

Segundo a educadora, os alunos com autismo precisam de clareza e previsibilidade, pois assim demonstram um comportamento mais tranquilo e colaborador. Ela acrescenta que o que diferencia o trabalho com crianças autistas de crianças com outras deficiências, “ é, principalmente, a estrutura do ambiente, pois no demais todos os nossos alunos necessitam construir a aprendizagem com muita atenção, amor e carinho por parte do profissional.”

 

Trabalho interdisciplinar desenvolvido pela Apae é fundamental

O trabalho desenvolvido pela equipe interdisciplinar da Apae, que tem como finalidade avaliação e reabilitação do paciente autista, trabalha as diferentes habilidades cognitivas, sociais e de linguagem, sendo que métodos eficazes para o tratamento do autismo utilizam a criatividade e comunicação na busca de resultados benéficos em meio ao tratamento.

 

Primeiramente, a criança chega à instituição para uma avaliação com cada profissional, juntamente com a família responsável, que posteriormente recebe uma devolutiva das avaliações. Então, iniciam-se os atendimentos profissionais individualizados conforme cada necessidade.

 

A psicóloga Carina reforça que, para o tratamento adequado, é imprescindível haver uma equipe interdisciplinar, pois estes profissionais devem trabalhar diferentes habilidades como cognitiva, social e linguagem buscando inseri-los nas práticas comuns do dia a dia. “O trabalho realizado na equipe interdisciplinar da Apae acontece de modo compartilhado, a fim de identificar as reais necessidades dos pacientes. Como o autismo possui diferentes níveis de comprometimento, o plano terapêutico deve ser adaptado individualmente a cada um. Por isso, a troca de informações entre profissionais é fundamental para o desenvolvimento do paciente.”

 

Já Tândara frisa que o resultado do uso conjunto das ferramentas de tratamento direciona o plano terapêutico, que usualmente abraça intervenções voltadas a várias áreas do desenvolvimento e conta com o trabalho de uma equipe multiprofissional, que visa promover maior adaptação desses indivíduos ao ambiente e, por consequência, favorecer sua autonomia e melhor qualidade de vida.

 

“O trabalho multiprofissional e interdisciplinar que ocorre na Apae é de extrema importância, pois a equipe trabalha em conjunto, trocando experiências e compartilhando conhecimento. As orientações, intervenções e acompanhamento são importantes e imprescindíveis”, reforça a professora Marciane.

 

A terapeuta ocupacional diz que o trabalho realizado em equipe é essencial e mais eficiente, pois cada profissional colabora com sua especialidade e todos juntos conseguem promover qualidade de vida e bem-estar para o paciente e seus familiares.

 

Apae e família: uma dupla de sucesso

As profissionais são unânimes em afirmar que a atuação da família no processo de reabilitação é fundamental. “Ela torna-se evidente desde o primeiro momento, no processo de avaliação e acompanhamento terapêutico. A atuação familiar também se mostra relevante no que diz respeito à implementação de atividades propostas pelo profissional e à avaliação cotidiana da progressividade e efetividade do tratamento. Esta participação é fundamental e imprescindível no desenvolvimento e ganhos no acompanhamento psicológico, assim como com os demais profissionais”, acrescenta Carina.

 

Para a terapeuta ocupacional Marília, o papel da família é o mais importante na rede de apoio dos pacientes com TEA. “Família é pilar principal. Mesmo sabendo que a forma como cada pessoa autista evolui é única e depende de diferentes fatores, o engajamento da família no processo terapêutico é essencial, contribuindo na evolução e na retomada do desenvolvimento.”

 

A fonoaudióloga Tândara reitera que a família exerce um papel importante no planejamento e execução de intervenções e estratégias de enfrentamento das dificuldades do cotidiano, estimulando esse indivíduo com atividades presentes na própria rotina, com o objetivo de promover a aquisição de novas habilidades que vão refletir em suas características comportamentais. “As intervenções são promovidas de modo conjunto entre profissionais e família, cuja participação é fundamental no processo de desenvolvimento de um indivíduo com TEA, a fim de favorecer suas habilidades relacionais, comportamentais e de comunicação.”

 

Para Marciane, o papel da família é de extrema importância na vida de uma criança com autismo. Ela ainda sugere três passos para uma melhor adaptação. “Primeiramente, a família deve conhecer sobre o autismo. Depois, admitir a condição e buscar apoio de uma equipe interdisciplinar envolvida e que procura conviver com da melhor forma possível.”

 

Inclusão e empatia: observemos as competências e não somente as limitações

Para Tândara, é necessário que além, da consciência das necessidades e individualidades deste paciente, da existência do autismo, haja a aceitação. “Autismo não é uma doença, e não há cura para esta condição. Com as terapias em conjunto com profissionais e a família conseguimos adaptar este indivíduo para melhorar sua qualidade de vida. Por isso, é importante haver a compreensão de que apenas a conscientização não é o suficiente.”

 

Carina acrescenta que a inclusão de autistas no sistema educacional ainda é um desafio muito grande, pois poucas escolas compreendem que o plano de inclusão deve ter como objetivo principal desenvolver as capacidades ainda não adquiridas pela criança e proporcionar recursos para diminuir o seu repertorio de comportamentos inadequados.

 

“As escolas, em geral, ainda se mantem muito rígidas ao conteúdo pedagógico, oferecendo pouca flexibilização dos métodos de ensino e da organização de rotinas escolares. Para que a inclusão seja efetiva, é necessário que a escola invista na formação dos professores e crie uma rede de apoio sólida e bem estabelecida entre gestores escolares, professores, monitores, familiares e profissionais da saúde. Além de adequar os procedimentos de ensino, é preciso que os educadores observem as competências do aluno, e não somente as suas limitações.”

 

Quanto a inclusão social, Carina diz que ainda estamos muito distantes do ideal, pois a necessidade de compreensão por parte da população geral sobre o autismo ainda é muito estigmatizada. “A aceitação como inclusão só causará um efeito quando a sociedade compreender o autismo em todos os seus aspectos.”

 

A professora Marciane, corroborando com a colega Carina, afirma que, antes do aluno autista ingressar em uma escola regular, ele também deve de ser muito bem preparado. “Deve-se procurar desenvolver a consciência deste aluno em relação as suas potencialidades, e sempre estar em contato com o aluno e com a escola, para ajudar em caso de dificuldades.”

 

Já Marília diz acreditar que a sociedade já avançou em relação à inclusão e respeito às diferenças, mas que é preciso continuar batalhando por essa causa e, principalmente, trabalhar mais a conscientização e a empatia.

Fonte: Jaqueline Peripolli / Jornalista MTE 16.999

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