Publicidades

30/04/2021 | 05:24 | Saúde

Brasil supera 400 mil mortos por coronavírus com risco de piora

Metade das mortes ocorreu nos primeiros meses de 2021

Quatorze meses após o primeiro caso confirmado, o Brasil ultrapassou a marca de 400 mil mortos por coronavírus nesta quinta-feira (29), segundo dados oficiais do Ministério da Saúde. Com mais 3.001 óbitos registrados nas últimas 24 horas, o país acumula 401.186 vítimas da doença.

 

O registro acontece em meio ao risco de piora em virtude da retomada de atividades com alta possibilidade de circulação viral, como está acontecendo no Rio Grande do Sul, e poucos dias após a instauração da CPI parlamentar que investiga o governo Jair Bolsonaro pela condução do combate à pandemia.
O Brasil abriga 2,7% da população mundial, mas concentra 12,7% de todas as mortes por covid-19 no mundo, conforme estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Apenas os Estados Unidos, polo mundial de viagens internacionais, registraram mais vítimas: 574,3 mil. 

 

O total de vidas perdidas na pandemia em solo brasileiro representa mais do que a população inteira de 99,6% das cidades gaúchas. Também é como se fossem varridas do mapa as capitais Vitória (ES), Rio Branco (AC) ou Palmas (TO). 

 

Em termos proporcionais, o Brasil apresenta a 13ª maior taxa de mortalidade a cada 1 milhão de habitantes no mundo. É o pior desempenho entre nações da América Latina e da Ásia e fica logo depois de Reino Unido e Itália. E pior que os Estados Unidos, segundo o Our World in Data, mantido pela Universidade de Oxford.


— O fato de não estarmos no primeiro lugar não nos tira a posição de ser o país que teve o maior número de mortos por dia no mundo. Justo o Brasil, com a equipe técnica que tinha no início da pandemia, com o Sistema Único de Saúde e o Plano Nacional de Imunização. Tínhamos a faca e o queijo na mão. Temos Estados mais pobres, mas o país como um todo tinha estrutura para responder melhor à pandemia — afirma a médica Beatriz Schaan, coordenadora do grupo de trabalho de enfrentamento ao coronavírus no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).

 

Das 400 mil mortes por coronavírus registradas no Brasil, 200 mil aconteceram de janeiro para cá – com o avanço da cepa P.1, originária de Manaus, e o aumento de vítimas jovens. Agora, o país retoma as atividades em patamares próximos aos do início das restrições das últimas semanas – boletim divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na quarta-feira (28) classifica o cenário atual do país como em "patamar crítico" e diz que a epidemia no país vive "uma tendência de ligeira queda, mas ainda não de contenção". 

 

Dados do Ministério da Saúde registram uma média móvel de 57 mil novos casos diários no Brasil até quarta-feira – 26% abaixo do pior momento da pandemia em nível nacional, em 27 de março, mas próximo ao registrado quando hospitais começaram a colapsar no início do mês passado em diferentes Estados, incluindo o Rio Grande do Sul. 


A média de novos óbitos também segue alta: quase 2,4 mil mortes diárias, um patamar 23,5% abaixo do ápice de 12 de abril, mas, ainda assim, próximo ao fim de março. 

 

A gravidade da pandemia no Brasil é resultado da estratégia de permitir a circulação do vírus sem interferência até que hospitais estejam à beira do colapso, avalia Paulo Nadanovsky, pesquisador do Departamento de Epidemiologia da Fiocruz e professor de Epidemiologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). 

 

— O caso brasileiro alterna entre uma fase de nenhuma estratégia substancial e uma fase de estratégia de mitigação. Quando casos subiam, havia sobrecarga do sistema de saúde, surgia um clamor para se fazer algo e aparecia a mitigação, que visa apenas a reduzir a sobrecarga do sistema de saúde. Uma vez que reduz a sobrecarga, começa o relaxamento antes de o número de casos chegar próximo de zero. Inglaterra e Suécia começaram com esse modelo, mas abandonaram — diz Nadanovsky. 


Também contribuiu para o agravamento o posicionamento do governo federal contra o distanciamento social e o uso de máscaras e levantou dúvidas sobre a segurança de vacinas, destacam analistas. 

 

Em maio do ano passado, o governo Jair Bolsonaro chegou a recusar a oferta de 70 milhões de doses da Pfizer e a compra da CoronaVac devido à origem chinesa do imunizante. 

 

Pressionado pela opinião pública, o presidente e o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello justificaram que não poderiam comprar vacinas antes da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), apesar de a União ter feito isso com a vacina de Oxford, a única aposta do governo durante meses.

 

— Uma pandemia exige distanciamento social, uso de máscara e a busca o mais cedo possível de vacina, mas, infelizmente, a posição do governo foi muito negacionista no decorrer de 2020, ainda que tenha havido pequena mudança hoje. O Estados Unidos vacinam muito, mas não é porque são ricos. O que faltou não foi dinheiro no Brasil, mas iniciativa, em maio do ano passado, para negociar vacinas e ir atrás da possibilidade de produzir. Os Estados Unidos se adiantaram e disseram que queriam a vacina. Nós não nos adiantamos, demoramos a entrar na fila e hoje dependemos do IFA da China e da Índia, depois de muita discussão diplomática — diz Beatriz Schaan, do Hospital de Clínicas. 

 

Em um contexto no qual a sociedade se acostumou a patamares trágicos da pandemia, a retomada das atividades em meio a níveis altos de contaminação e óbitos reduz o fôlego até a chegada de uma próxima onda, avalia o médico Alexandre Zavascki, coordenador do setor de Infectologia no Hospital Moinhos de Vento e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

 

— Embora tenhamos uma queda nos últimos dias em casos e mortes, estamos em patamares superiores a qualquer momento. Quanto mais alto o número de casos ao retomar uma rotina de normalidade, mais rápido voltará o aumento. Aceitamos, enquanto sociedade, continuar a vida com um aumento da margem de risco. Teremos que apostar tudo na vacinação para diminuir a doença em hospitais e reduzir as perdas — diz. 


Para Zavascki, a vacinação deve proteger os idosos e as pessoas com comorbidades de adoecer gravemente e morrer por covid-19, mas não será capaz de impedir, sem distanciamento social, um grande aumento de casos e possível sobrecarga hospitalar. 

 

Até o momento, o Brasil é o quinto país que mais aplicou vacinas em termos brutos, mas cai para 72º levando-se em conta o tamanho da população, conforme estatísticas do Our World in Data.

 

— Nesse nível em que estamos, a vacinação não segura uma nova onda. A população dos 20 aos 48 anos não está vacinada, é a que mais dissemina o vírus e a que mais tem casos. Um menor impacto deverá ser sentido no sistema hospitalar, mas o Brasil só faz intervenções em mobilidade quando o sistema de saúde está colapsando, então podemos ser surpreendidos. Se as hospitalizações estiverem suavizadas, mas os casos apresentarem crescimento exponencial sem nenhuma medida de intervenção, pode haver um número estratosférico de novas infecções, o que resultará em muitas pessoas chegando aos hospitais — diz o infectologista. 

 

Como formas de controle da pandemia, analistas reforçam as medidas necessárias: aceleração da vacinação, uso de máscaras o tempo todo, sobretudo PFF2 ou N95, distanciamento social e preferência por circular em ambientes abertos e com grande ventilação.

 

Colaborou Marcelo Gonzatto

Fonte: GZH

Mais notícias desta categoria

Publicidades