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31/05/2021 | 08:04 | Geral

Em dia de fechamento geral do comércio, Cachoeira do Sul registra pouco movimento nas ruas

Prefeitura adotou medidas mais restritivas na semana passada, mas decidiu promover nova liberação de atividades a partir desta segunda-feira devido aos prejuízos econômicos

As farmácias puderam atuar somente com telentrega, de portas fechadas - Lauro Alves / Agencia RBS

A Catedral Nossa Senhora da Conceição, igreja em que uma celebração foi realizada em abril de 1845 para louvar a “pacificação da província”, após o armistício da Revolução Farroupilha, não abriu as portas neste domingo (30) para os fiéis da cidade de Cachoeira do Sul, na Região Central. 

 

O dia marcou a adoção de restrições mais severas por 24 horas, incluindo a proibição de cultos religiosos, para tentar conter a covid-19 no município de 81,8 mil habitantes que tornou-se um dos epicentros da pandemia no Rio Grande do Sul, com esgotamento do sistema de saúde. Neste domingo, conforme o painel da Secretaria Estadual da Saúde (SES), o Hospital de Caridade e Beneficência, único da região de Cachoeira do Sul a oferecer vagas de UTI, estava com 138,9% de ocupação nos leitos do SUS de alta complexidade. Excepcionalmente neste domingo, os serviços considerados essenciais também sofreram restrições: os mercados de todos os portes, as peixarias, os açougues, as fruteiras e as padarias permaneceram completamente fechadas. As farmácias puderam atuar somente com telentrega, de portas fechadas.


O decreto com as restrições por um dia deixou as ruas com pouco movimento de pedestres, apesar do domingo ensolarado. Ainda assim, dentre as pessoas que circulavam, não era pequena a quantidade de gente que estava sem máscara. Já a circulação de veículos pelas vias era maior. 


Em frente à Catedral, na Praça Balthazar de Bem, o Château d’Eau costuma ser ponto de encontro em dias de folga e ponto turístico para os visitantes. O monumento, erguido em 1925, contendo uma imagem de Netuno, o Rei das Águas, no topo, estava praticamente vazio à tarde. Três fiscais da prefeitura, identificadas com colete amarelo, circulavam para orientar pessoas de que era vedada a permanência no local, seja de pé ou em cadeiras. Para quem estava sem proteção, elas entregavam máscaras gratuitamente.

 

Apesar do movimento escasso, uma família estacionou em frente à catedral, botou uma música a rodar no rádio do carro e se sentou aos pés da escadaria sacra para curtir o domingo. Coube à fiscal Cláudia Janine Trindade ir ao encontro para informar que não era permitido permanecer ali, sob pena de aplicação de multa e de serem chamadas as equipes de fiscalização e da Brigada Militar. Ela explicou que o objetivo é evitar aglomerações neste momento crítico. A família ficou contrariada com a abordagem, mas acabou deixando o local, partindo para uma caminhada. 

 

— As pessoas reclamam, alguns xingam, mas a maioria cumpre quando pedimos. Explicamos a situação do hospital, que está superlotado, mas muitos dizem que estamos aqui só para ganhar hora-extra e que nosso trabalho não tem valor — diz Marlise Trindade, outra fiscal municipal, certa da relevância da sua função no pico da pandemia municipal.

 

A mesma situação de baixo movimento, com a presença de fiscais, também foi observada ao longo do dia nas praças José Bonifácio, onde a pista de skate estava vazia, e a Honorato de Souza Santos. 

 

O comércio está atuando desde 24 de maio, há uma semana, apenas no modelo tele-entrega. O presencial e o pegue e leve estão vedados. Ao baixar a medida, o prefeito José Otávio Germano (PP) justificou, no texto do decreto, que o hospital da cidade chegou a ter, recentemente, 185% de ocupação dos leitos de UTI.

 

A cidade tem 124 mortes acumuladas desde o início da pandemia, sendo cem delas notificadas nos cinco primeiros meses de 2021. Nos últimos sete dias, a região de Cachoeira do Sul, que reúne outros 11 municípios, teve incidência acumulada de 539,9 casos positivos para cada 100 mil habitantes. No Rio Grande do Sul, o indicador ficou em 235,8, o que demonstra a maior disseminação na localidade cachoeirense.  

 

Apesar da situação, setores da cidade estão em pé de guerra com a prefeitura. Na quinta-feira (27), uma carreata liderada por empresários e políticos percorreu a cidade para pressionar pela retomada do comércio. 

 

Uma proprietária de um ponto de xis no centro de Cachoeira do Sul, que prefere não se identificar, lamenta as perdas. Ela diz jamais ter vivido momento de tamanha penúria financeira. Afirma que, em um domingo ensolarado de pegue e leve, conseguia vender cerca de cem lanches. O problema é que o negócio dela funciona somente no presencial ou pegue e leve, sem adaptação para o sistema de tele-entrega até então. Resolveu abrir, mesmo assim, neste domingo, para ver se aparecia algo. Até às 12h30min, horário em que a chapa já deveria estar bombando a fritura dos bifes, calabresas e bacons, a empresária não havia recebido nenhum pedido. Zero. 

 

— No pegue e leve vendia alguma coisa. Sobrevivíamos. Agora está muito difícil. Estou aqui na esperança de uma tele porque os boletos não param de chegar — diz a mulher.

 

Questionada sobre o colapso no sistema de saúde, a avaliação foi de que o comércio não é responsável pela situação, argumento que costuma ser usado com frequência por defensores da manutenção das atividades. Também reclama que outras cidades da região enviam seus pacientes para Cachoeira do Sul. 

 

Com permissão apenas para fazer tele-entrega, nem todas as farmácias abriram. Na Rua Sete de Setembro, funcionários de uma loja afixaram cartazes na cortina de ferro, mantida baixada. 

 

A gerente Andrisa da Silva Vieira, da Farmácias Associadas, disse que a equipe estava reduzida a apenas quatro atendentes. Ela avaliou que o movimento estava bom.

 

— Já temos clientes fiéis da tele. Em geral, são idosos que estão evitando se expor por receio da covid — diz Andrisa. 

 

No sábado (29), conta ela, houve forte movimento presencial e foi preciso organizar filas externas. 

 

— Quando pedimos para entrar só um por família, as pessoas estranham um pouco — relata.  

 

Outro local tradicional em Cachoeira do Sul é o Balneário Praia Nova, faixa de areia banhada pelas águas do Rio Jacuí. Mesmo em dias de outono ou inverno, o local costuma ser frequentado nos dias ensolarados por pessoas que buscam lazer, petiscos e bebidas para aproveitar a folga. 

 

O som alto que ecoava música de baile até sugeria que alguém estava burlando as restrições, mas o rádio soava apenas aos ouvidos de Glenio Florence e Antonio Carlos de Oliveira. Ambos trabalham e moram nos bares à margem do Jacuí e, com o fechamento, aproveitam o dia para bebericar uma caipira feita com limão bergamota e pescar pintado, piava e jundiá. 

 

— No verão que passou já não deu o movimento que estávamos acostumados. Na alta temporada, ocupamos 60 mesas com quatro cadeiras cada e tem música ao vivo — diz Florence, que trabalha na cozinha do restaurante Bar do Rio. 

 

Nos primeiros dias de governo, em 13 de janeiro, seguindo um conjunto de flexibilizações, o prefeito Germano autorizou a reabertura do Balneário Praia Nova, o que viria a cair em 26 de fevereiro, com o agravamento geral da pandemia e a decretação de bandeira preta em todo o Rio Grande do Sul, cenário que perdurou por três semanas.


Prefeitura vai liberar atividades 


Pressionada por comerciantes e pela superlotação do Hospital de Caridade e Beneficência, a prefeitura de Cachoeira do Sul publicou neste domingo (30) o decreto que autoriza a retomada das atividades presenciais a partir desta segunda-feira (31). A avaliação do município é de que as restrições mais severas à circulação e às atividades econômicas, que vigoraram entre 24 e 30 de maio, não contaram com a adesão necessária da população. O titular da Secretaria de Governo, Hélio da Costa Garcia Júnior, diz que não foi possível derrubar de forma significativa os novos contágios pelo coronavírus.

 

— As medidas de restrição tiveram parcial resultado, mas não vão fazer a curva descer de forma rápida. A população não cumpre na integralidade a restrição. As pessoas continuavam caminhando na rua, nas praças. (...) Iam aos mercados para passear. Não estávamos conseguindo tirar o vírus de circulação. A contaminação continua elevada. Tivemos de reavaliar a questão como um todo, inclusive pela economia — diz Garcia.

 

Com o novo decreto, o setor de alimentação poderá funcionar no modelo presencial até às 20h. O comércio em geral também poderá reabrir as portas com o mesmo horário limite. Voltam ainda as missas, com lotação de 5% da capacidade dos templos, academias, clubes sociais e mercados. 


Diante das flexibilizações em momento de alta da pandemia, a prefeitura de Cachoeira do Sul criou o que pode ser chamado de “alvará covid”. As empresas cujo funcionamento está permitido terão prazo até o dia 4 de junho para apresentar testes de antígeno em toda a equipe de empregados e proprietários. A periodicidade das verificações será mensal. O decreto diz que o descumprimento das normas implicará em proibição de funcionamento. O plano da prefeitura é ousado, colocado em prática por países como Coreia do Sul, o que requer organização, capacidade de fiscalização e de rastreio: identificar os contaminados pelos exames, afastá-los das atividades e verificar cotidianamente se estão cumprindo o isolamento. 

 

— Vamos ter uma lista de positivados, constante monitoramento da nossa Vigilância Sanitária e adotar medidas legais se essas pessoas forem encontradas na rua. A gente vai ligar e, por amostragem, vamos ir nas residências onde as pessoas devem estar em isolamento — diz Garcia.

 

Seguirão vedadas em Cachoeira do Sul as atividades presenciais de educação em todos os níveis e a abertura de estabelecimentos como bares, cinemas, quadras esportivas e casas de festas. 

 

A economia de Cachoeira do Sul é baseada na agricultura, com destaque para a soja e o arroz. Na sua zona urbana, a predominância é do comércio e do setor de serviços. Garcia avalia que a flexibilização das atividades, mesmo em momento de colapso na saúde e dos riscos envolvidos, foi “inevitável” diante das dificuldades econômicas. 

 

— O governo do Estado atirou no colo dos prefeitos. Ele tinha todo um sistema de controle da pandemia, pelo sistema de bandeiras. Gostando ou não, era um sistema de controle. Foi rasgado esse trabalho de mais de um ano. Agora, cabe a nós achar os melhores caminhos para controlar a pandemia, de olho na questão econômica — justifica Garcia.

 

No atual modelo de manejo da pandemia do governo estadual, com mais liberdades às prefeituras, a região de Cachoeira do Sul está sob “alerta” desde 18 de maio. 

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