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| 05:37 | Saúde 5 min de leitura

Ômicron deve prolongar pandemia, mas terceira dose e máscaras podem proteger o Brasil, opinam especialistas

Regime completo deverá incorporar terceira dose; no futuro, vacinação pode ser anual, como contra gripe, dizem analistas

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Regime completo deverá incorporar terceira dose; no futuro, vacinação pode ser anual, como contra gripe, dizem analistas
Reprodução/Internet

A chegada da variante Ômicron, altamente transmissível, deve adiar o controle da transmissão de covid-19 no mundo. Porém, a aplicação de dose de reforço da vacina em todos os adultos e a continuidade do uso de máscaras devem proteger o Brasil de um agravamento da situação, afirmam três analistas entrevistados por GZH.

Se antes da Ômicron se projetava que a covid-19 se tornaria uma endemia no Brasil no início de 2022 – ou seja, circularia em baixos patamares –, agora se especula que essa meta poderá ser adiada, não se sabe o quanto. Não se espera aumento massivo de mortes, e sim de casos, graças à cobertura vacinal – 66,2% de todos os brasileiros tomaram duas doses.

— Endemização pressupõe certo equilíbrio. Com a Ômicron entrando, parece que vai desbalancear o quadro, jogando pra frente o controle. Pode ser que haja uma nova onda, mas minha expectativa é de que não seja tão expressiva quanto antes e que, depois, entre em certo equilíbrio, como outra doença respiratória — avalia Daniel Villela,  coordenador do Programa de Computação Científica e pesquisador do Observatório Covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

Dados preliminares ao redor do mundo vêm indicando que três doses de vacina fortalecem o sistema imunológico de pessoas que receberam a segunda dose há mais de cinco meses contra a Ômicron – o reforço eleva os níveis de anticorpos e diminui a chance de hospitalizações, mortes e até mesmo de adoecer levemente.

Em grande parte da Europa, a terceira vacina estava restrita a profissionais da saúde e idosos em idade mais avançada. No Brasil, o Ministério da Saúde se antecipou e estabeleceu, na metade de novembro, que qualquer cidadão com 18 anos ou mais deverá receber o reforço cinco meses após a segunda dose. A decisão é elogiada por especialistas – até esta sexta-feira (17), 10% dos brasileiros ganharam a terceira aplicação. 

No Rio Grande do Sul, 12% dos gaúchos tomaram o reforço, conforme estatísticas da Secretaria Estadual da Saúde (SES-RS). Entre 1,4 milhão de gaúchos com três doses, mais de 1 milhão são idosos, o que deve proteger essa parcela, a mais vulnerável, contra agravamento.

Nos Estados Unidos, cientistas inclusive pressionam o governo a mudar o conceito de “esquema vacinal completo” para incluir três doses, e não apenas duas – Israel já o fez. Especialistas entrevistados por GZH afirmam que essa deverá ser a tendência no Brasil: uma forma de convocar a população para o reforço.

— Está parecendo que o vírus escapa da proteção e que vamos precisar de mais uma dose. Na vacina da gripe, a cada ano a pessoa toma uma vacina porque entram novas variantes. Isso vira natural, não dizemos que o regime é de “tantas” doses. Minha expectativa é de que a covid entre em uma questão sazonal. Aí, a cada ano aconteceria uma revacinação, por conta da mudança do vírus — acrescenta Daniel Villela, da Fiocruz. 

A decisão do governo federal de estender a dose de reforço para todos os brasileiros com 18 anos ou mais é elogiada também por Fernando Spilki, professor de Virologia na Universidade Feevale e coordenador da Rede Corona-ômica, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). 

Ele destaca que a Ômicron vem gerando grande aumento no número de casos no Reino Unido e na Dinamarca, a despeito da alta cobertura vacinal, mas ainda não houve tempo para sentir impacto no aumento de mortes.  

— Felizmente, temos parte da população acima dos 40 anos com reforço vacinal, o que não é comum em outros países. O reforço evitou surtos e internações por outras variantes. Provavelmente, isso será a realidade para a Ômicron. Mantido reforço vacinal e uso de máscaras, talvez seja o necessário para continuarmos a endemização da covid. O que vemos para um “novo normal” é uma pessoa com três doses, na qual encontraremos vírus, mas sem sinais clínicos ou apenas sintomas muito leves — diz Spilki.

A manutenção do uso de máscaras no Brasil, diz Spilki, também é outro ponto alto: a despeito de o uso não ser 100% respeitado, a exigência é grande em ambientes fechados e meios de transporte, o que reduz o risco de surtos. Ao mesmo tempo, o virologista é cauteloso e cita que, a despeito de a Ômicron possivelmente ser menos letal, o fato de ser mais transmissível pode culminar em elevação no número de casos graves.

O imunologista Gustavo Cabral, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Pensi, destaca a inclusão de crianças na campanha como ponto favorável a um maior controle da covid-19. 

— No Brasil, temos nível de vacinação mais alto e avançamos no reforço, o que dá certo conforto para reprogramar qualquer organização de combate à pandemia sem quantidade de mortes muito alta. A Ômicron pode ter dispersão relativamente alta, mas não elevar o número de mortes. Temos dois terços da população vacinada, a Ômicron não vai levar todo mundo para hospitalização. Talvez seja questão de dar dose de reforço com a vacina modificada, mas sem precisar dar duas ou três doses do zero. Não é surgimento de novo vírus, e sim de uma nova variante — afirma.

O imunologista acrescenta que a inclusão de terceira dose para classificar que o esquema vacinal está completo contribuiria para reforçar na população a necessidade do reforço. Todavia, ele alerta para o risco aumentar a desigualdade vacinal no planeta. 

Cabral defende que a continuidade da pandemia para além do esperado não é culpa da Ômicron em si, mas sim da baixa aplicação de imunizantes, com consequente risco de novas variantes.

— Se mal temos duas doses em um continente inteiro, imagina três doses. Mas o Brasil tem imunidade prévia. Alemanha e Reino Unido são mais duros: aconteceu aumento, eles fecham e isolam. Aqui, temos um governo que estimula as pessoas a banalizarem o número de mortes se não for assustador. Se não chegar a mil mortes por dia, está bom. E a sociedade aceita bem — diz, refletindo sobre a maior resistência brasileira à piora da epidemia.

Fonte: GZH

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