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10/01/2022 | 06:31 | Geral

Cenário de inflação e juro faz de 2022 o ano da renda fixa

BC mantém política de alta da Selic em meio a incertezas fiscais e políticas e o Exterior menos benigno aos emergentes

Reprodução internet

O período com a taxa Selic em um dígito – próxima dos menores patamares históricos – e inflação sob controle, no passado recente, geraram a migração em massa de recursos para os chamados ativos de risco. Nos últimos meses, mudou. Projeções do relatório Focus do Banco Central (BC) apontam juro básico em 11,50% e IPCA em 5,03% até fim de dezembro. Esses são alguns dos elementos que fazem de 2022 o ano da renda fixa.

Diante do cenário, em 2021, já houve a saída de R$ 85,2 bilhões da bolsa brasileira, a B3. A soma dos saldos entre aportes e retiradas de investidores pessoa física ficou em R$ 6,64 bilhões, e dos institucionais, em R$ 78,53 bilhões.

O tombo só não foi maior porque os estrangeiros ingressaram com R$ 70,7 bilhões.

Sócio fundador da Privatto Multi Family Office, Eduardo Tellechea Cairoli explica que o brasileiro tem seus investimentos ancorados na taxa Selic: quando está alta, demarca a opção pela renda fixa; se ficar baixa, a escolha é pelo risco. Com o aumento recente do juro básico, atualmente em 9,25% ao ano, Cairoli observa a saída em larga escala rumo à renda fixa:

— O brasileiro é refém dos juros. Há 15 anos, estávamos acostumados com renda fixa pagando algo acima de dois dígitos. Há alguns anos, vimos uma estabilização da inflação e o início dos cortes de juro. A migração de recursos, entre o período de juros a 14% para 2%, foi grande para ativos de renda variável. E agora, quando saiu de 2%, e observamos em junho que a inflação saiu do prumo, acabou gerando uma saída de ativos de risco para a renda fixa.

Para Cairoli, 2022 tem uma série de peculiaridades. A principal: a taxa de juro precificada está acima do que a prevista para os anos seguintes.

— O que se vê é o contrário e a taxa deste ano está mais elevada do que nos próximos dois ou três anos. Acontece por uma conjuntura atípica que estamos vivendo em razão da pandemia — esclarece.

Outro aspecto é que, após uma inflação (de 10,01%) mais alta do que o juro básico (de 9,25%) no ano passado, conforme o relatório Focus, do BC, em 2022, a diferença projetada entre a Selic (11,50%) e o IPCA (5,03%) é de 6,47 pontos percentuais – a maior até 2024. Isso gera, de acordo com o especialista, uma espécie de brecha para os ganhos em renda fixa.  

Nesse contexto, a gangorra que se estabelece com a migração das carteiras de risco para a renda fixa torna o ano ainda mais desafiador. Por isso, avalia Cairoli, ao olhar para uma estratégia de investimento, é preciso perceber o todo e mover-se rápido para capturar as oportunidades:

— O Brasil é formado por ciclos. O país é um eletrocardiograma macroeconômico. Esse é um ano de renda fixa, e, em algum momento, quando a inflação começar a arrefecer pode haver espaço melhor para ações. Mas hoje as carteiras estão mais equilibradas do que antes, quando eram praticamente formadas só por ativos de risco.

Valorização do dólar    

Na esteira das mudanças, a deterioração do poder de compra dos brasileiros, quando comparado ao dólar, chega a 73% entre 2017 e 2021, aponta relatório da Privatto. Para o futuro, o indicativo é de mais desvalorização para o real, em razão da esperada retirada de estímulos monetários e da alta dos juros nos Estados Unidos.

— Já vemos o dólar retomando a valorização perante as demais moedas, após ter se depreciado durante a covid, mas ter se apreciado frente ao real. Isso significa que o real se desvalorizou demais e perdemos muitas riquezas nesse período em que todos ficamos mais pobres — pontua Cairoli.  

A conjuntura reforça o peso da renda fixa nas carteiras, mas também faz com que os ativos em moeda estrangeira sigam em alta. Em contrapartida, Cairoli projeta que 2022 pode trazer surpresas positivas com a inflação, não em razão dos juros, mas associada ao enfraquecimento dos preços das commodities e ao desempenho mais fraco da economia brasileira.

— O que vivemos foi uma espécie de período pós-guerra com estresse de commodities muito elevado. Todas as correlações de preço de commodities com moeda foram para o espaço. Vemos em algum momento, talvez no segundo semestre do ano, que isso possa voltar para algo próximo da racionalidade, ao custo de uma desaceleração maior da economia brasileira — especula.  

Em busca de papéis com ganhos acima do IPCA      

Com o cenário atual, Gustavo Bertotti Messem, economista-chefe da Messem Investimentos, percebe fortes mudanças entre 2021 e 2022. Com isso, alguns produtos já despontam, segundo ele, entre as opções disponíveis para os investidores interessados em superar a inflação com acréscimo de ganho real – tarefa difícil no decorrer de 2021.  

É o caso do título do Tesouro IPCA+, que protege os valores aportados da inflação e devolve ganhos fixos. Há ativos deste tipo, com vencimento em 2026, que pagam o IPCA mais 5% ao ano, por exemplo.

— Ou seja, permite um reagente para a inflação com um juro real positivo — comenta.  

Messem também chama a atenção para operações de renda fixa em CDBs, com retorno médio fixados em 12%. Além disso, aponta para produtos como CRIs e CRAs, isentos de tributação, que se tornam bastante atrativos neste momento.  

A dica, entretanto, é diversificar. Isso acontece, porque, na contramão, a bolsa de valores está "extremamente barata", no que se refere a relação preço/lucro (P/L) das empresas negociadas, mas, que, por outro lado, são penalizadas com incertezas fiscais, políticas e eleitorais.

— Existem ações que estão com desvalorização significativa, mas que apresentaram crescimento de receita e lucro, pagam bons dividendos e exibem fundamentos sólidos, ainda que tenham seus papéis em baixa no momento — explica Messem.  

Algumas dicas

Economista-chefe da Geral Asset, Denílson Alencastro complementa que, recentemente, alguns produtos financeiros, antes restritos às rendas mais elevadas, ficaram mais acessíveis aos investidores do varejo. Nesse contexto, destaca ativos do Tesouro Nacional, além de CDBs, LCIs e LCAs, em que é possível obter retornos vinculados ao CDI e, portanto, a tendência é ganhar mais com a elevação da taxa Selic.  

Outra alternativa, diz, é garimpar fundos com bons resultados ao longo dos anos. Contudo, alerta, que isso depende de um perfil mais arrojado e do apetite ao lucro.

— É possível gerar posições em prazos de dois ou três anos, o que favorece ações em bolsa. É preciso ter paciência e não perder o "timing", porque as chances vão surgir — sustenta.

As sugestões de Gustavo Bertotti Messem, economista-chefe da Messem Investimentos, e Denílson Alencastro, economista-chefe da Geral Asset, para investimentos em 2022:

  • Nos títulos do Tesouro Nacional, dê preferência para os que pagam a variação da Selic ou os indexados ao IPCA mais taxa de juro acima de 4,5%, de preferência de curto prazo
  • No caso dos títulos públicos pré-fixados, os que paguem em média 10% ao ano
  • Para os papéis privados, também prefira os atrelados ao CDI, que acompanha a Selic. É o caso dos CDB pré-fixados, com retorno médio de 12% ao ano ou CDBs pós-fixados, com retorno médio de 110% do CDI
  • Outras opções na modalidade são CRIs, CRAs e debêntures com isenção de IR para pessoa física com retorno médio de IPCA mais 5% ao ano ou CDBs atrelados à inflação com desembolso de IPCA mais 5% ao ano
  • Embora seja o ano da renda fixa, não deixe de olhar para o mercado de ações, caso tenha apetite a mais risco. Nesse caso, uma opção é buscar fundos que busquem superar a inflação, olhando o histórico de ganhos 

Glossário

  • CDB: o Certificado de Depósito Bancário consiste em emprestar dinheiro ao banco. Pode ter uma taxa prefixada ou pós-fixada, a mais comum remunera com percentual do CDI. É coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e tem desconto de Imposto de Renda (IR)
  • CDI: o Certificado de Depósito Interbancário é a média da taxa de juro para empréstimos entre bancos. É uma taxa usada como indexador de vários investimentos, sobretudo os de renda fixa
  • FGC: criado e mantido pelo sistema financeiro, o Fundo Garantidor de Crédito restitui os investimentos no caso de o banco em que está a aplicação quebrar. O limite é de R$ 250 mil por CPF, por instituição financeira
  • LCI e LCA: as Letras de Crédito Imobiliário ou do Agronegócio são títulos emitidos por bancos, isentos de Imposto de Renda e contam com FGC
  • CRI/CRA: os certificados de Recebíveis Imobiliários ou do Agronegócio são títulos lastreados em dívidas imobiliárias ou do setor agrícola, emitidos por securitizadoras por meio de instituições financeiras. São ativos de renda fixa, isentos de IR, mas não contam com FGC
  • Debênture: título de dívida emitido por empresas que oferecem direito de crédito ao investidor. Não tem proteção do FGC

Fonte: GZH

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