12/01/2026 | 06:19 | Política
Adão Villaverde (PT), Jerônimo Goergen (PP) e Márcio Biolchi (MDB) contam os motivos que os levaram a renunciar à vida pública
Em ano eleitoral, como 2026, políticos não descansam. A rotina é dedicada à busca de aliados, ao planejamento das campanhas e à formulação de estratégias. Alguns poucos, porém, têm uma vida mais tranquila.
Mesmo com projeção de votação suficiente para conquistar um novo mandato, desistem da vida pública, abandonando os palanques. No Rio Grande do Sul, três parlamentares de prestígio seguiram esse caminho sem remorso.
Em 2018, Adão Villaverde (PT) deixou a Assembleia Legislativa para retornar à Escola Politécnica da PUC-RS, onde ministra aulas desde os anos 1980. Em 2022, foi a vez de Jerônimo Goergen (PP), que trocou a Câmara dos Deputados para atuar como advogado e presidente de entidades setoriais. Em 2026, quem diz adeus às urnas é Márcio Biolchi (MDB), cujo futuro está atrelado à empresa da família.
Como justificativa, manifestam um certo desencanto com os limites do parlamento e os rumos da política atual. Nenhum abandonou as convicções ideológicas nem saiu do partido. Eles só chegaram ao mesmo diagnóstico pessoal: fechou-se um ciclo.
O professor volta à sala de aula
Dos 11 aos 16 anos, Adão Villaverde militou na política estudantil, participando do movimento secundarista em Alegrete, Santa Maria e Porto Alegre. Filiou-se ao MDB durante o bipartidarismo dos anos 1970 e migrou ao PT em 1980, logo após a fundação da sigla. A estreia nas urnas, porém, só veio em 2002, aos 44 anos, após chefiar duas pastas no governo Olívio Dutra (1999-2002): Ciência e Tecnologia e, depois, Planejamento e Gestão.
— Sempre fui um cara de opinião no partido, só que nunca tive vontade de disputar eleição. No governo, ficavam me incentivando a concorrer a deputado, e me elegi sem querer ser eleito. Não imaginava que teria votos — conta Villaverde.
Na Assembleia Legislativa, logo se tornou referência para temas estruturais, sobretudo inovação e tecnologia. Engenheiro civil e professor universitário com mestrado e doutorado, especializado em semicondutores, ajudou a atrair para Porto Alegre a Ceitec, estatal de desenvolvimento de chips.
Em plenário, dedicava-se à discussão e elaboração de projetos, sem negligenciar a disputa ideológica. Filho de um servidor do Daer preso pelo regime militar, concorreu à prefeitura da Capital em 2012, ficando em terceiro lugar.
Em quatro mandatos sucessivos, apresentou dezenas de projetos. Criou a chamada Lei Villaverde, que fiscaliza a evolução patrimonial de gestores públicos, e presidiu a comissão que atualizou a legislação de prevenção de incêndios depois da tragédia da boate Kiss.
Redigida após visitas a Santa Maria e consultas a especialistas do Brasil e do exterior, a Lei Kiss foi aprovada por unanimidade e considerada um dos mais modernos regramentos sobre o tema. Nos anos seguintes, foi sucessivamente flexibilizada.
— Foi uma lei técnica, hoje praticamente mutilada. Era muito clara nos critérios de responsabilidade e atribuições. Era sobretudo uma lei justa, pois evitava extremos como a leniência e o proibicionismo — comenta.
Em 2014, Villa disputou uma eleição pela última vez. Voltou à sala de aula quatro anos depois, retomando a cátedra de Engenharia de Gestão do Conhecimento e Inovação, uma das mais prestigiadas da PUCRS. Aos 67 anos, divide-se entre os estudos de semicondutores e a participação em seminários mundo afora. Atualmente, organiza um simpósio internacional que vai reunir expoentes da área em Porto Alegre.
O ruralista troca de trincheira
Filho e sobrinho de políticos, Jerônimo Goergen fazia campanha de bicicleta na infância, distribuindo santinhos da família pelas ruas empoeiradas de Santo Augusto, no norte do Estado. Aos 20 anos, filiou-se ao PP e quis concorrer a vereador, mas foi impedido pela mãe: antes, seria preciso concluir a faculdade.
Jerônimo formou-se em Direito, presidiu a juventude do partido e tornou-se assessor do então ministro da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Moraes. Em Brasília, logo se acostumou à rotina de audiências, despachos e formulações.
— Eu passava os dias recebendo prefeitos, fui pegando jeito e gosto por aquilo, até que alguém me sugeriu concorrer a deputado. Me entusiasmei pela ideia e me elegi — conta Jerônimo.
Identificado com o agronegócio, fez do campo sua principal bandeira política. A interlocução com entidades setoriais e a defesa de incentivos à produção primária dobraram sua votação na eleição seguinte, quando foi convidado a assumir a Secretaria da Agricultura no governo Yeda Crusius (2007-2010). Acabou escanteado após votar contra um aumento de impostos proposto por Yeda antes mesmo da posse.
Eleito três vezes deputado federal a partir, Jerônimo ampliou sua área de atuação na Câmara. De perfil liberal, incorporou pautas de setores econômicos como o transporte, a indústria e o mercado financeiro, sem perder protagonismo na bancada ruralista. A desenvoltura com que transitava pelo centro e pela direita o fizeram ser sondado para o Ministério da Agricultura nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, mas os convites não se concretizaram.
Em 2018, tentou concorrer ao Senado mas esbarrou na candidatura de Luis Carlos Heinze (PP). Sonhava com o governo do Estado em 2022, mas de novo viu a vaga ocupada pelo correligionário e decidiu encerrar a carreira parlamentar.
— Sempre considerei dois mandatos no mesmo cargo mais do que suficiente. Em 2018, já concorri contrariado e logo disse que seria a última vez — diz o ex-deputado.
Sem mandato há quatro anos, Jerônimo hoje se divide entre Porto Alegre, Florianópolis, São Paulo e Brasília. É sócio de um escritório de advocacia, de uma empresa de relações institucionais e presidente de duas entidades, a Associação de Produtores de Biocombustíveis e a Associação das Empresas Cerealistas do Brasil. Não abandonou a política, mas atua em outros fóruns.
O conciliador sai de cena
Márcio Biolchi tinha 19 anos e não gostava de política quando recebeu um telefonema do senador Pedro Simon (MDB). De Brasília, Simon convocava Márcio, filho do então deputado federal Osvaldo Biolchi, a se filiar ao partido e disputar um cargo público. Na eleição seguinte, Márcio foi o vereador mais votado de Carazinho (RS), também o mais jovem a ser eleito na história do município.
— Por mais que a política fosse presente lá em casa, eu não me envolvia. Nem adesivo do pai eu botava no carro. Mas tinha uma veneração de infância pelo Simon. Lembro que na campanha de 1986 ele foi fazer um comício em Carazinho e eu não pude ir porque estava com sarampo, mas meu pai voltou pra casa com um cartaz autografado para mim. Então quando ele me ligou, não tive como dizer não. No outro dia assinei ficha no partido — lembra Márcio.
À vereança somaram-se outros seis mandatos consecutivos, três de deputado estadual e três de federal. Considerado um dos mais promissores quadros do partido, foi secretário-chefe da Casa Civil e secretário de de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia na gestão de José Ivo Sartori (2015-2018) e líder do governo Yeda Crusius (2007-2010).
Em 26 anos de vida pública, Márcio se caracterizou pela desenvoltura com que transitava entre esquerda e direita. Afeito aos bastidores, cordato e resolutivo, conduzia negociações focando sempre nas convergências de lado a lado em busca do acordo possível. Atualmente, já não considera sua principal característica um ativo político e eleitoral.
Embora tenha uma reeleição considerada tranquila para a Câmara dos Deputados, Márcio decidiu não concorrer mais. Mesmo com o Congresso em recesso neste início de ano, segue cumprindo os compromissos parlamentares, mas já começa a contar os meses que faltam para aposentadoria precoce. Aos 46 anos, pretende se dedicar à empresa de assessoria empresarial que tem ao lado da irmã, com escritório de Carazinho, Passo Fundo, São Paulo e Brasília.
— É quase uma renúncia. Meus aliados dizem que eu nem preciso fazer campanha, eles fazem tudo para mim, mas não adianta me reeleger se isso já não me realiza. No começo até tinha ambições maiores, mas com o tempo tu vês que o mais importante é o que tu fazes com as oportunidades que a vida te dá. Cumpri um ciclo e agora vou me dedicar aos negócios e à família — afirma o futuro ex-deputado.