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29/05/2026 | 12:56 | Geral

Entenda quais as consequências práticas de enquadrar PCC e CV como grupos terroristas internacionais

Especialistas alertam para riscos de insegurança jurídica, bloqueio de ativos no mercado financeiro e restrições de viagens aos EUA, além de barreiras na investigação policial

Especialistas alertam para riscos de insegurança jurídica, bloqueio de ativos no mercado financeiro e restrições de viagens aos EUA, além de barreiras na investigação policial
Marco Rubio comando o Departamento de Estado dos Estados Unidos. ANDREW HARNIK / GETTY IMAGES NORTH AMERICA

O anúncio feito pelo governo dos Estados Unidos (EUA) na quinta-feira (28), sinalizando que irá enquadrar como organizações terroristas internacionais as duas maiores facções criminosas brasileiras — Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) — foi recebido com preocupação por especialistas.

Pesquisadores e autoridades ouvidos pela reportagem manifestam receio sobre os impactos práticos da decisão. Os principais riscos envolvem a insegurança jurídica, possíveis impactos no mercado financeiro nacional e o enfraquecimento de investigações policiais.
Os pesquisadores afirmam ainda que a decisão pode comprometer a soberania nacional e, na prática, até mesmo dificultar a troca de informações entre os países.

De acordo com o governo americano, a medida, tomada à revelia do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e após a visita do pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro aos EUA, será efetivada no dia 5 de junho. Procurado, o Itamaraty ainda não se manifestou até a última atualização desta reportagem.

Risco ao sistema financeiro e ameaça a vistos
— Quem deveria estar mais preocupado agora, neste momento, é o sistema bancário — afirma Mauricio Dieter, professor de Direito Penal e Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). 

— Se há alguma conexão que possa implicar em indícios (de elo com o PCC), eles vão poder bloquear as ações, os ativos de empresas no Exterior. Cria uma insegurança jurídica enorme — acrescenta.

Operações recentes, como a Carbono Oculto, indicaram justamente a infiltração de facções como o PCC na economia formal, com esquemas que envolvem não só faccionados (membros da organização), mas espécies de "parceiros de negócio" do crime organizado operando até da Avenida Brigadeiro Faria Lima, principal centro financeiro do país. Há também indícios que grupos ligados ao PCC controlam centenas de postos de combustíveis no Brasil.

Até pela extensão da atuação do crime organizado hoje, Dieter ressalta que a medida do Departamento de Estado dos Estados Unidos abre brecha para diferentes repercussões, o que pode incluir até o aumento de restrições de viagens de brasileiros para os Estados Unidos.

— Isso afeta a própria capacidade de intervenção dos Estados Unidos no nosso território ou em ativos brasileiros no Exterior pela mera suspeita de conexão com o Comando Vermelho ou o PCC — acrescenta.

É pretexto para avançar em questões que estavam muito bem resguardadas pela diplomacia

MAURICIO DIETER

Professor de Direito Penal e Criminologia da Faculdade de Direito da USP

Movimentação tem sentido geopolítico, avalia pesquisador
Na avaliação de Roberto Uchôa, pesquisador da Universidade de Coimbra, a medida adotada pelo governo dos Estados Unidos não vem em um sentido de cooperação com o governo brasileiro, que vinha contraindicando a classificação de organizações brasileiras como terroristas.

— É um movimento que tem muito mais sentido geopolítico, de pressão sobre o governo brasileiro e sobre o Brasil, que (amplia) o que o governo dos Estados Unidos tem feito com vários países da América Latina e que ele tem utilizado para, através de poderes coercitivos — seja por ameaça de sanções, intervenções ou até, em última análise, de ações militares, pressionar o governo a tomar algumas decisões que favoreçam os interesses dos Estados Unidos — afirma.

Medida pode ser entrave para cooperação em investigações
Ao mesmo tempo, pesquisadores e autoridades colocam em xeque a possibilidade de possíveis ganhos investigativos, e em tecnologia, com o novo enquadramento de PCC e Comando Vermelho. Segundo Uchôa, se o interesse fosse contribuir com o governo brasileiro, o caminho seria o das cooperações, dando continuidade ao trabalho que vinha sendo feito.

É mais uma sinalização da política de interferência dos Estados Unidos em países da América Latina. O Brasil é apenas a bola da vez.

ROBERTO UCHÔA

Pesquisador da Universidade de Coimbra

— Principalmente para combater dois pontos: o do tráfico de armas e de lavagem de dinheiro — afirma o pesquisador.

No mês passado, os governos do Brasil e dos Estados Unidos firmaram um acordo de cooperação para intensificar o combate ao crime organizado transnacional, com ações que miram a interceptação de cargas ilícitas de armamentos e de drogas transportadas entre esses dois países. As medidas incluem a adoção de um programa para compartilhamento de informações em tempo real.

— O que a gente sabe, ouvindo promotores, especialistas e policiais que trabalham com o tema, é que, quando você classifica (uma organização) como terrorista, há inclusive níveis de sigilo que são colocados nas informações e acaba dificultando, por exemplo, o acesso às informações pelas polícias estaduais — afirma a diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo.

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya — maior autoridade no país no combate ao PCC — e o procurador de Justiça e ex-secretário Nacional de Segurança Pública Mário Luiz Sarrubbo, afirmam que a medida favorece criminosos, em vez de endurecer o combate ao crime. Isso porque, ao aumentar o nível de risco apresentado pelas duas facções, o governo americano deixa de tratá-las como um caso de polícia e passa a considerá-la um problema militar.

A consequência disso é que a Drug Enforcement Agency (DEA), a agência antidrogas americana, e o FBI, a polícia federal americana, deixam de investigar as facções, que passam a ser um problema da CIA, a agência de inteligência americana e das Forças Armadas dos EUA.

— Eu, por exemplo, troco informações toda semana com a DEA (Drug Enforcement Agency) e com o FBI. Com a transferência para a CIA, isso não vai ocorrer — afirmou o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, que é jurado de morte pelo PCC.

O bastidor político em Washington
O anúncio da medida pelos Estados Unidos se dá após visita feita na última terça-feira (26), por Flávio Bolsonaro ao presidente americano, Donald Trump. Na ocasião, o parlamentar disse ter pleiteado a inclusão das facções na lista de organizações terroristas internacionais. No dia seguinte, o senador se encontrou para discutir o assunto com secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que é justamente quem assina o comunicado da decisão.

"A administração Trump vai continuar usando todas as ferramentas disponíveis para proteger a nossa nação e os nossos interesses de segurança mantendo drogas ilícitas longe das nossas ruas e acabando com os fluxos de rendas que financiam narcoterroristas violentos", escreveu Rubio.

Apesar da designação um dia após o encontro com Flávio, a gestão Trump já estudava há meses o enquadramento dos dois grupos e mantinha diálogo com o governo brasileiro sobre a intenção de efetivar esse plano.

Rubio afirmou no comunicado do Departamento de Estado dos EUA que as duas facções possuem influência e conexões ilícitas que "se estendem muito além das fronteiras do Brasil, da nossa região" e estão dentro do território americano.

Na prática, o anúncio indica que PCC e CV vão ser enquadrados tanto como Specially Designated Global Terrorists (SDGTs), que abrange também grupos criminosos americanos, e Foreign Terrorist Organizations (FTOs), focada em grupos estrangeiros com braços também nos EUA. 

Conforme mapeamento do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), o Primeiro Comando da Capital hoje está presente em ao menos 28 países, incluindo nos Estados Unidos.

Pode parecer, para a população brasileira, que é uma saída, mas é uma ‘cortina de fumaça’, quando, na verdade, o que a gente precisa para enfrentar o crime organizado são acordos bilaterais.

CAROLINA RICARDO

Diretora-executiva do Instituto Sou da Paz

Em nota, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirmou lamentar que "um tema com implicações profundas na soberania e autonomia do Brasil, na sua economia, sistema financeiro e nos mecanismos de cooperação regional e internacional, tenha sido capturado pela disputa eleitoral e a medida norte americana ser incentivada como solução de um problema bem mais complexo, sem considerar os riscos de saídas unilaterais de outras nações para uma economia do porte da brasileira".

Fonte: GZH
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