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| 19:21 | Segurança 8 min de leitura

Em nove meses, assistência social fez só uma visita à casa de menino morto espancado pelo pai em Viamão

Em duas ocasiões, foram identificadas nas crianças, durante atendimento médico, marcas e lesões; na escola, comportamento isolado fez com que reunião fosse marcada com a mãe para 9 de julho, data da confirmação da morte do pequeno Oliver

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Em duas ocasiões, foram identificadas nas crianças, durante atendimento médico, marcas e lesões; na escola, comportamento isolado fez com que reunião fosse marcada com a mãe para 9 de julho, data da confirmação da morte do pequeno Oliver
Dandre, Mayanna e o filho Oliver, que morreu após ser agredido. Arquivo pessoal / Divulgação

Mesmo diante de uma família extremamente vulnerável — sem trabalho e sem renda —, com histórico de supostos maus-tratos contra os filhos, retirada da guarda dos pais em outro Estado e atendimentos médicos locais com lesões suspeitas, a rede de proteção de Viamão não enxergou o risco que existia dentro da casa do missionário norte-americano Dandre Jermaine Grayson.

Entre novembro e julho, quando Oliver Golden Grayson, de três anos, foi espancado e morto pelo pai, há registros de muita conversa dos órgãos de proteção, reuniões, planejamentos e relatórios. Zero Hora apurou que neste período de nove meses, a assistência social esteve apenas uma vez dentro da casa dos Grayson, em Águas Claras, onde agora autoridades dizem que todos os filhos sofriam uma rotina de agressões físicas e psicológicas.

O começo em Viamão

Os Grayson se mudaram para Viamão em agosto do ano passado. Em setembro, as crianças começaram a frequentar a escola. Foi o primeiro contato com um dos elos da rede de proteção de Viamão.

Sinais de alerta 

  • 28 de novembro: um dos meninos deu entrada no posto de saúde com um ferimento no joelho. A família alegou queda de uma cadeira. O garoto confirmou a história. No entanto, pela resistência da mãe em receber apoio assistencial, uma enfermeira acionou o Conselho Tutelar, que abriu um expediente para conhecer a família.
  • 2 de dezembro: as crianças voltaram ao posto com conjuntivite e mais marcas de possível violência doméstica: o menino mais velho tinha um ferimento facial classificado nas anotações como "significativo". Uma das meninas tinha "marcas nos braços".

— Familiares disseram que um irmão havia jogado uma peça de Lego no rosto do menino. Parecia tudo certo. A gente falhou talvez em não entender o todo. Não vejo que houve omissão de alguém, mas talvez não entendemos em tempo a gravidade do caso. Agora, que o crime aconteceu, todos sinais são visíveis — destaca Henrique Noronha, secretário de Desenvolvimento Social de Viamão.

Portões fechados e a retórica do suspeito

A Secretaria de Desenvolvimento Social de Viamão garante que o acompanhamento necessário era feito e informa que houve muitas tentativas de visitas. Em 17 de dezembro, por exemplo, uma assistente social do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) foi ao local. Não teve acesso porque o portão ficava muito longe da porta. A secretaria explica que os profissionais não podem passar da entrada  sem autorização. Ela bateu e chamou, mas não sabe se foi ouvida por alguém que não quis abrir a porta ou se não tinha ninguém na casa. Conversou com vizinhos e fez um relatório para discutir com os demais integrantes da rede. 

Neste dia, autoridades de Viamão já sabiam do histórico da família em Palmitos, Santa Catarina, onde denúncias de moradores motivaram o abrigamento das crianças por três meses. 

No dia seguinte Dandre compareceu voluntariamente ao CRAS. O caso era tratado como "vulnerabilidade social".

Os registros mostram que ele falou que eram vítimas de racismo por ele ser negro e a esposa, branca. O missionário relatou que Mayanna se vestia com roupas longas por temer assédio. Disse que eram uma família feliz, mas que por conta do assédio e do racismo eram "superprotetores" com os filhos. A partir desse contato, a família começou a receber benefícios sociais. Ainda em dezembro, a situação dos Grayson foi classificada como complexa por órgãos de proteção e a "rede deliberou pela realização de uma discussão formal do caso", segundo consta em relatório da prefeitura. A reunião foi marcada para 14 de janeiro.

No mesmo mês, Oliver chegou ao posto de saúde com um dos braços quebrados.

A reunião da rede e a "normalidade" aparente

No encontro de 14 de janeiro, os pontos de alerta estavam devidamente registrados e foram expostos. Uma conselheira tutelar discorreu sobre o histórico em Santa Catarina e "destacou a necessidade de atenção da rede em razão dos antecedentes existentes e da importância de garantir a proteção integral da crianças". Uma enfermeira fez relato dos atendimentos médicos e de marcas percebidas nas crianças. A direção da escola falou da frequência escolar (considerada boa) e da adaptação das crianças. Integrantes do CRAS contaram sobre tentativas de visitas (ZH pediu à prefeitura todas as datas das tentativas, mas não teve essa resposta) e sobre as condições de vulnerabilidade social dos Grayson. Duas assistentes sociais do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) avaliaram a necessidade de "acompanhamento especializado considerando a complexidade do caso, o histórico apresentado e a necessidade de monitoramento mais sistemático da situação familiar".  Foi acertado que o CREAS assumiria a coordenação técnica do caso.

Doze dias depois da reunião, uma assistente social do CREAS tentou visita domiciliar, mas não obteve sucesso. No dia 2 de fevereiro, a família compareceu para atendimento no CREAS. O cenário descrito em registro da técnica foi de normalidade e felicidade: crianças afetuosas com os pais, clima ameno com Dandre, sempre conduzindo a conversa por conta de limitações da esposa com a língua portuguesa (ela falava mais em inglês).

Depois disso, segundo consta em relatório da prefeitura, somente em abril o caso voltou a ter alguma movimentação. O CREAS questionou a escola sobre a situação das crianças. A resposta foi de que não havia elementos que "justificassem alerta ou preocupação".

A única visita e o desfecho trágico

Em maio, a família se mudou para um imóvel cedido por uma instituição religiosa. Em função da mudança, as crianças foram matriculadas em outra escola, mais perto da nova casa. No mês seguinte, em 16 de junho, a assistência social especializada entrou na casa dos Grayson pela primeira vez. O registro da técnica sobre a visita foi, em resumo: "organização familiar adequada". A profissional, inclusive, cogitou de a família deixar de ser acompanhada pelo serviço especializado do CREAS e voltar para o atendimento da proteção social básica junto ao CRAS. Isso foi colocado em relatório.

Mas um alerta soou no mesmo mês, vindo da nova escola, que informou que as crianças usavam roupas inadequadas para o frio, demonstravam fome excessiva, eram muito quietas e isoladas, além de terem limitação de comunicação pelo fato de falarem inglês (ainda que tenham todos nascido no Brasil). Isso fez com que o CREAS marcasse uma conversa com a mãe para 9 de julho, na escola. Mas foi neste dia que ocorreu o desfecho trágico que a rede de proteção não enxergou.

Oliver, que havia sido espancado no domingo (5), teve a morte confirmada publicamente ao amanhecer da quinta-feira (9). Seus órgãos já haviam sido retirados na noite anterior para doação. A mãe foi presa neste mesmo dia, sob suspeita de ter se omitido diante das agressões contra os filhos. Os quatro irmãos de Oliver foram inseridos no serviço de acolhimento. Dandre estava preso desde o domingo.

Documentos e relatórios

O prefeito de Viamão, Rafael Bortoletti, admitiu falha no atendimento feito à família. As situações envolvendo os Grayson não chegaram ao conhecimento da polícia antes de Oliver ser espancado pelo pai. Questionada sobre a unidade de saúde não ter informado à polícia sobre as marcas e ferimentos vistos nas crianças, a Secretaria de Desenvolvimento Social de Viamão explicou que não havia indícios de serem decorrentes de agressões. O Ministério Público Estadual disse não ter recebido comunicação sobre o histórico de problemas dos Grayson em Santa Catarina. O MP de Santa Catarina, por sua vez, emitiu nota afirmando que o procedimento de proteção foi enviado à Vara da Infância e da Juventude de Viamão em setembro do ano passado a fim de que houvesse continuidade no acompanhamento da família no RS. Nesta segunda-feira (13), o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul informou que não tinha conhecimento dos fatos, pois a Distribuição do Foro de Viamão não recebeu comunicado de envio pela Comarca de Palmitos. Segundo o TJ, o processo ainda não foi enviado.

Sobre a família ter recebido apenas uma visita da Assistência Social, apesar dos vários alertas registrados pela própria rede de proteção em relatórios, o secretário Henrique Noronha falou:

— Com certeza, está errado. O que talvez tenha dificultado a interpretação dos técnicos é que várias vezes, depois das tentativas (de visita) frustradas, no dia seguinte ele (Dandre) ia até o equipamento (falar com os técnicos) e estava tudo normal, tudo bem e fazia relatos de forma consistente. Ele inclusive participava desde o final o final de janeiro de um grupo de trabalho de prevenção ao trabalho infantil, ele participava de todas as reuniões, ele ia até o CRAS — afirma o secretário.  

Ele passava boa impressão, enganou super bem. Por isso, eu digo que é um perfil psicopata, ele manipulou muito bem o todo.

HENRIQUE NORONHA

Secretário de Desenvolvimento Social de Viamão.

Agora, além de investigar as circunstâncias da morte de Oliver e eventuais crimes cometidos pelos pais contra os quatro irmãos do menino, a Polícia Civil também apura falhas na rede de proteção.

Fonte: GZH

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