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| 07:52 | Segurança 5 min de leitura

Registros de violência contra mulheres aumentam até 28% em dias de jogos de futebol, aponta estudo; veja causas

Pesquisa considera ocorrências de ameaças e lesões corporais em cinco capitais, incluindo Porto Alegre

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Pesquisa considera ocorrências de ameaças e lesões corporais em cinco capitais, incluindo Porto Alegre
Efeito é mais intenso entre jovens na faixa entre 15 e 29 anos. Bruno Todeschini / Agencia RBS

Enquanto a bola rola no campo, dentro de alguns lares o clima esportivo pode dar lugar a um ambiente violento. Isso porque em dias de jogos de futebol há um aumento significativo de registros de violência doméstica. A conclusão é de um relatório produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado nesta terça-feira (11). 

Conforme o estudo, que toma como base ocorrências de 2023 a 2025 em cinco capitais, incluindo Porto Alegre, os registros de ameaças contra mulheres aumentaram 27,4% e de lesões corporais dolosas cresceram 28,8% em dias de partidas oficiais. A pesquisa considerou o calendário das principais competições de futebol: Campeonato Brasileiro (Série A), Copa Libertadores e Copa Sul-Americana.

O efeito é mais intenso para jovens do sexo feminino com faixa etária entre 15 e 29 anos: os dados apontam para aumento de 44% nos registros em dias de jogos, tanto para ameaças quanto para lesões corporais dolosas.  

— Esse é um tipo de violência que tem se recrudescido e alcançado as mulheres jovens, especialmente, e num lugar especial: dentro de casa — ressalta Juliana Brandão, coordenadora de gênero e raça do FBSP.

Além da capital gaúcha, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte foram incluídas no estudo. Nesta segunda edição, o relatório é patrocinado pelo Magalu e promovido pelo Grupo Mulheres do Brasil. 

Problema se agravou nos últimos anos

Em relação à primeira edição, publicada em 2022, com base em registros de 2015 a 2018, o problema se intensificou. Naquela ocasião, a elevação constatada nas ocorrências de ameaças em dias de jogos era de 23,7%. Já nesta edição, o crescimento observado foi de 27,4%. No caso de lesões corporais, o aumento nas ocorrências passou de 20,8% para 28,8%.

Outra revelação envolve o aspecto racial. Entre mulheres negras, os registros de lesão cresceram 23,2% e os de agressão, 14,6% em dias de jogos, enquanto entre mulheres brancas o aumento foi de 30,9% e 36,2%, respectivamente. A diferença é atribuída a subnotificação vinculada a maior vulnerabilidade social, bem como a ocupação das mulheres.

— Nos perguntamos: a mulher negra está em casa quando o jogo está rolando? Talvez não. A gente supõe que a realidade é diferente nesse recorte racial — diz Juliana.

Cultura futebolística, álcool e apostas estão entre as causas 

Segundo a pesquisa, o futebol não é apontado como causa direta da violência, mas como um catalisador  e amplificador de dinâmicas de violência já existentes. A cultura futebolística, associada a rivalidade, virilidade, dominação e competição, pode funcionar como gatilho para comportamentos agressivos. O consumo abusivo de álcool e o engajamento em apostas esportivas também podem intensificar situações de conflito.

A divulgação do estudo ocorreu em São Paulo, por meio de uma coletiva de imprensa com transmissão online. Participaram representantes do FBSP, a empresária Luiza Helena Trajano, presidente do conselho de administração do Magalu, e o ex-jogador de futebol Raí.

— Nosso problema não é acabar com os homens, mas salvar as mulheres — referiu a empresária.

Para combater o problema, o reforço das redes de proteção à mulheres é uma das principais estratégias a serem reforçadas. Isso inclui, conforme o estudo, campanhas de conscientização ligadas ao futebol, monitoramento de medidas protetivas e ações educativas que envolvam clubes, federações e torcidas.  O relatório lista 10 recomendações para o enfrentamento à violência contra mulheres no contexto do futebol (veja abaixo).

Sediaremos uma Copa Feminina no Brasil. O mundo estará aqui. Assim como tivemos Sócrates como porta-voz da democracia, temos Vini Júnior como embaixador da causa racial e Marta que luta pelas mulheres no futebol, temos de ter mais embaixadores da causa da violência contra a mulher.

RAÍ

Ex-jogador de futebol

Confira as recomendações do estudo

  • Instituir, em todos os setores dos estádios, postos permanentes de acolhimento e formalização de denúncias de violência contra as mulheres, garantindo atendimento imediato e evitando a necessidade de deslocamento ao Juizado Especial do Torcedor ou a unidades externas de segurança pública.
  • Assegurar a atuação articulada entre poder público, clubes, federações e torcidas para a promoção de debates e ações permanentes sobre violência contra as mulheres e padrões de masculinidade.
  • Fortalecer os mecanismos de monitoramento da violência doméstica, com atenção à recorrência das denúncias e ao efetivo cumprimento das medidas protetivas de urgência.
  • Implementar encontros educativos de médio e longo prazo, promovidos pelas federações e clubes, voltados à desconstrução de padrões de masculinidade hegemônica e de práticas de dominação de gênero.
  • A partir da atuação articulada, desenvolver estratégias de prevenção que considerem fatores de risco associados, com especial atenção ao consumo abusivo de álcool e à dependência de apostas esportivas (bets), enquanto potenciais catalisadores de situações de violência.
  • Fomentar, por meio das secretarias de cultura, políticas públicas voltadas às torcidas que valorizem dimensões socioculturais do futebol, priorizando a promoção de uma cultura torcedora inclusiva em detrimento de abordagens exclusivamente proibitivas.
  • Estabelecer parcerias com iniciativas e projetos voltados ao desenvolvimento socioemocional de jovens torcedores.
  • Incentivar a atuação dos clubes na promoção de programas contínuos de formação de atletas, com foco na prevenção da violência contra as mulheres e na responsabilidade social no esporte.
  • Adotar protocolos internos, no âmbito dos clubes, para o tratamento de casos de violência doméstica envolvendo atletas, incluindo medidas de responsabilização e acompanhamento
  • Promover a formação continuada de integrantes de torcidas organizadas e sócio torcedores sobre violência de gênero, bem como incentivar a criação de protocolos internos de responsabilização e afastamento de membros condenados por violência doméstica.

Fonte: GZH

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