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| 05:50 | Geral 11 min de leitura

“Sempre voltei para o Rio Grande e acho que não perdi essa essência”: memórias e histórias de Glória Menezes

Atriz, que morreu nesta terça-feira (18), aos 91 anos, no Rio de Janeiro, concedeu entrevista à revista Donna em 2015, quando esteve em Porto Alegre

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Atriz, que morreu nesta terça-feira (18), aos 91 anos, no Rio de Janeiro, concedeu entrevista à revista Donna em 2015, quando esteve em Porto Alegre
Com mais de seis décadas de carreira, Glória Menezes deixou personagens que atravessaram gerações.

A atriz Glória Menezes, um dos maiores nomes da televisão, do cinema e do teatro brasileiros, morreu nesta terça-feira (18), aos 91 anos, no Rio de Janeiro. Natural de Pelotas (RS), ela construiu uma carreira de mais de seis décadas e deixou personagens que atravessaram gerações.

Em outubro de 2015, quando esteve em Porto Alegre para apresentar o espetáculo Ensina-me a Viver, no palco do Theatro São Pedro, Glória conversou com a revista Donna sobre carreira, amor, casamento, envelhecimento e lembranças da infância no Estado. Prestes a completar 81 anos à época, ela mantinha a disposição para o trabalho e dizia não pensar em aposentadoria.

A vitalidade aparecia até nos detalhes. Ao chegar para a sessão de fotos da revista, Glória se surpreendeu ao saber que seria capa:

— Mas como assim, capa?

— Sim, capa. Você será fotografada para a capa da revista.

— Ah, mas então eu preciso me arrumar. Tenho que voltar ao meu quarto para me maquiar. Vocês me aguardam um instantinho? — perguntou.

A cena revelava um pouco da personalidade da atriz: apesar de décadas de reconhecimento, ela ainda parecia genuinamente surpresa diante de uma homenagem ou do tamanho da própria trajetória.

O sucesso que sempre a acompanhou, desde o começo na profissão, também se repetiu na vida pessoal, especialmente no casamento de décadas com o ator Tarcísio Meira, seu par em muitas novelas, que morreu no dia 12 de agosto de 2021, aos 85 anos, em São Paulo, vítima de complicações causadas pela Covid-19. 

— Teve uma atriz muito importante na época da TV Excelsior, não vou dizer o nome, que estava do outro lado da rua e gritou para mim: "Glória Menezes!". Eu respondi: "Oi!". E ela disse: "Faz sucesso na carreira e é casada com o homem mais lindo do Brasil!". Virou as costas e foi embora. E eu falei: "É verdade!".

Reveja a entrevista concedida em 2015

Donna — De onde vem tanta vitalidade?

Glória Menezes — Não me pergunte, porque eu não sei (risos). O dia em que eu a perder, vou saber que a perdi. Mas, agora, não me pergunte de onde vem porque eu não sei. Mas tenho 80 anos apenas no papel. Sei que tenho vitalidade, graças a Deus. Minha mãe era assim, acho que isso é um privilégio das mulheres gaúchas. Os homens saíam para as guerras e deixavam as mulheres tomando conta de tudo. Elas tinham de aprender e botar muita energia em tudo o que faziam, para tomar conta sozinhas de tudo. Acho que isso influencia.

Donna — Como são os cuidados com a saúde?

Glória — Olha, eu fazia academia todos os dias. Fazia musculação para ter força, fazia ginástica, puxava aqueles aparelhos. Agora faço menos porque tive um problema. Estava me maquiando no camarim e havia uma cadeira atrás de mim, que foi para trás sem que eu percebesse. Sentei-me no ar, caí no chão com tudo e fraturei o sacro. Mas levantei dali e fui fazer o espetáculo, não parei, não. Aliás, não parei até hoje, o sacro foi colando sozinho. Então, hoje eu tenho mais cuidado com a atividade física. Mas foi a primeira vez na vida que quebrei alguma coisa. Em função disso, faço menos exercício, mas não deixo de fazer. E como muito pouco. Sempre fui um passarinho para comer, a vida inteira. Dizem que as pessoas que comem pouco vivem mais, né, acho que estou no caminho. Também adoro vinho, tomo uma taça de vinho tinto quase todas as noites, antes de jantar.

Donna — Nem pensa em aposentadoria?

Glória — Não! Imagina! Só vou parar no dia em que não puder subir mais no palco. Enquanto eu puder e enquanto tiver papel pra mim, enquanto houver convites, estou lá. Tarcísio tem a mesma disposição, está fazendo uma peça de grande sucesso em São Paulo. Depois de 20 anos voltou ao teatro, e eu achei ótimo. Fiquei orgulhosa dele.

Donna — Deve ser uma pergunta corriqueira, mas é impossível não fazê-la. Qual a receita para ter um casamento feliz?

Glória — Não tem receita. Ou melhor, a receita é muito simples, é uma palavrinha desse tamanhinho: amor. Onde existe o amor existe a compreensão, a tolerância, o prazer de estar junto, tudo isso. Às vezes a gente entra no elevador, um olhando para o outro, e ele fala: "Glória, você está tão bonitinha hoje". E eu falo: "E você está tão lindão!". E a gente se dá uns beijinhos, esqueço que tem câmera (risos). Afinal ele é o homem mais bonito do país, não é? E ele envelheceu muito bem, não perdeu cabelo, tem um porte lindo, não é? Isso é um privilégio, pois eu estou casada com o grande amor da minha vida. Isso é muito raro. Eu fecho o olho e vejo o Tarcísio jovem, correndo, andando a cavalo, aquelas pernas compridas dando passos largos. A gente nem vê o tempo passar para quem a gente ama.

Donna — Mas o tempo tem sido generoso com você também.

Glória — Você acha? Ah, eu também acho (risos). Eu nunca escondi idade, faz parte do meu temperamento e do modo como encaro a vida. Acho até bom dizer que tenho 80, porque normalmente as pessoas se espantam, acham que eu tenho menos.

Donna — Um dos grandes apelos da sua carreira, além do talento, é claro, foi a beleza.

Glória — Tu achas? Nunca me achei bonita. Sei que tenho um temperamento bom, sou comunicativa, se ia a uma festa os rapazes todos iam conversar comigo, me entrosava rapidamente, mas nunca pensei em beleza para o meu lado. Quando fui fazer o teste para a peça As Feiticeiras de Salem, em 1959, Tarcísio estava ensaiando uma outra peça. Ele me viu, mas eu não o vi. E aí ele falou: "Olha, que bonitinha!".

Donna — A sua vivência em Pelotas ainda influencia de alguma forma?

Glória — Não. Eu fui menina para São Paulo, apesar de ainda ter família aqui no Sul. O que eu guardo de Pelotas são lembranças incríveis. Eu morava em uma casa de esquina e tinha um bondinho que vinha fazendo aquele barulho, tén-tén-tén-tén, e parava na nossa esquina. Eu ficava olhando na janela... Isso é uma recordação muito forte que tenho da infância. Mas sempre voltei para o Rio Grande, e acho que não perdi essa essência. Mãe gaúcha e vó gaúcha é fogo, minha filha! (risos) Mamãe era uma grande contadora de histórias, vovó também. Eu dormia com a minha avó no mesmo quarto, e essa essência foi penetrando. A mamãe fazia uns doces de que nunca esqueço. Rei Alberto! Tu sabes o que é Rei Alberto? É um doce que eu adorava, aquela coisa colorida num copo... Nunca mais comi Rei Alberto. Olha o nome do doce, só podia ser de Pelotas!

Donna — Trouxe receitas da infância?

Glória — Não, não sou de cozinhar. Sou de decorar. Tudo o que tem na minha casa, quadro, poltrona, tapetes, fui eu que escolhi. Mas não me põe na cozinha. Esse foi um talento que eu não herdei. Mamãe cozinhava muito bem. Sabe quem cozinha bem? Tarcisinho, meu filho. E faz coisas bem gostosas.

Donna — A decisão de ser atriz foi tomada na infância, certo?

Glória — É, mais ou menos. Nós íamos de navio, de Rio Grande ao Rio de Janeiro, para encontrar meus avós. Na época eram 10, 12 dias de viagem. (O pai de Glória era maranhense, assim como os avós. Como a família estava espalhada pelo Brasil, eles organizavam encontros de todos no Rio de Janeiro, onde moravam alguns tios). Eu tinha cinco anos de idade e mamãe me botava para dormir depois do almoço. Mal sabia ela que, quando ela saía, o pessoal de uma trupe de argentinos que também viajava me buscava para ensaiar uma peça que seria apresentada a bordo. Me fizeram uma roupa de papel crepom, um vestido com umas florzinhas. Na noite da apresentação, quando apareci no palco, mamãe ficou fula da vida e me tirou do palco. Foi quando uma das atrizes disse a ela: "A senhora não vai poder tirar a sua filha do palco. Ela vai viver no palco". A mamãe sempre me contava isso.

Donna — Qual sua personagem preferida?

Glória — Na minha carreira, a preferida é a que estou fazendo agora. É o desafio do momento. Não tenho preferência. No momento em que eu li a Maude e comecei a fazer (a peça), ela passou a ser a minha personagem preferida. Tenho público de crianças até idosos. Quer coisa melhor do que isso? Eu acredito que não existe. Fazemos essa peça há oito anos, muito antes de eu completar 80. E posso ficar mais um tempo fazendo a Maude. Ela é tão querida, sou tão feliz fazendo ela. Estou com 80, sei lá quanto tempo vou durar, deixa eu aproveitar.

Donna — Como se relaciona com as novas gerações nos palcos e na televisão?

Glória — Adoro trabalhar com os jovens e dou muita força para os atores que estão começando. A gente fica mais jovem com eles, né? Fiz muita coisa, mas ainda aprendo com eles. Fiz novela ao vivo na Tupi e fiz a primeira gravada diária, na Excelsior. Era segunda, quarta e sexta, porque tinha que ter tempo pra gente decorar. Já troquei de roupa em close. O close no meu rosto, eu falando aquele bifão - bifão é texto grande, você sabe -, e a camareira tirando a minha roupa. Cortou para outra câmera e, quando voltou para mim, eu já estava com outra roupa. Também fiz Cristiano, cortei o cabelo em cena para fazer um homem, usava barba, bigode e cavanhaque.

Donna — Você foi, talvez, a primeira atriz a interpretar múltiplos papéis, fazendo três mulheres na novela Irmãos Coragem.

Glória — Sim, eu fazia Lara, Diana e Márcia. A Diana era safada. Lara era o contraponto, mais normal. Márcia era meio bobalhona (risos). Foi muita intuição. Acho que a criação de um personagem é algo que ocorre intuitivamente. Claro, a gente lê, discute com o diretor, mas aí, quando chega, pum! Quando eu fazia a Diana, criei um tique para ela (reproduz um estalinho com a boca que era a marca registrada da personagem). O Boni, quando viu, mandou eu parar, achou que não ficava bom. Mas acabou ficando. Uns 15 dias depois, ele passou por mim e disse: "Não para, não, ficou bom!". Ninguém sabia, era tudo intuitivo.

Donna — Também fez parte do fenômeno O Pagador de Promessas, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes.

Glória — Aquilo foi o início da minha carreira. Foi uma surpresa muito grande. Eu tinha ganho como atriz revelação e aí falaram de mim para o Anselmo (o diretor Anselmo Duarte). Fiz um teste em São Paulo e fui aprovada para fazer o papel que a Norma Bengell fez, a prostituta. Eu não ia fazer a Rosa, que era o papel da Ana Maria Dias, que pegou uma pneumonia dupla e não pôde fazer. Lá em Salvador, quando ia fazer a primeira tomada do filme, o Anselmo me mandou ir ao cabelereiro para cortar e pintar o cabelo. Eu estava loira, pronta para fazer a prostituta. No dia seguinte, à noite, eu já estava filmando a Rosa. Não tinha decorado texto, nada. De repente, estava em Cannes, meio sem saber por que, daí veio a Palma de Ouro. E tu sabes o que é receber um buquê de rosas, com cartão, de uma pessoa que morava no Brasil? Naquela época, aquilo era uma coisa impensável. E Tarcísio me mandou essas flores. Ele se apaixonou por mim e me mandou as rosas (risos). Não éramos nem namorados. Ele escreveu no cartãozinho assim: "Volte, volte, volte...". Ele estava começando a carreira de ator, mas ainda trabalhava no Fórum na época.

Donna — Que papel ainda quer fazer?

Glória — Eu nunca quero fazer nada. É o que bate, a surpresa que tenho com os papéis que eu leio, com os convites que me fazem. Nunca idealizei fazer um personagem. A surpresa é o que mais me atrai. Com a Maude, por exemplo, eu vi o filme, que passou nos anos 1970 (Ensina-me a Viver - no original, Harold and Maude -, dirigido por Hal Ashby em 1971). Naquela época eu não tinha idade para fazer a personagem, mas pensei que ela era interessante e me perguntei se viveria para poder fazê-la. Agora estou aí fazendo a Maude, graças a Deus.

Fonte: GZH

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