A Polícia Federal (PF) ouviu pelo menos 50 eleitores com possível envolvimento na entrega de notas promissórias
em troca de votos em Presidente Nereu, no Vale do Itajaí. Segundo Luciana de Castro Ribeiro, delegada responsável pelo caso, os depoimentos não divergem. Ela pretende
apresentar um relatório do inquérito em duas semanas ao Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina.
Na última terça-feira (23), foi
deflagrada a Operação Prometeu que apura um suposto esquema de corrupção envolvendo o prefeito de Presidente Nereu na última terça-feira (23).
Conforme a investigação, Antonio Comandoli é suspeito de “comprar” votos oferecendo em troca notas promissórias, que somariam R$ 3 milhões. Os
depoimentos de testemunhas foram tomados até sexta-feira (26).
“Pelo que a gente percebeu ali, ele prometeu quase a cidade inteira. Os depoimentos
estão no mesmo sentido, tudo bem igualzinho. Estou reunindo os documentos e depoimentos no inquérito”, diz a delegada. No entanto, segundo ela, algumas pessoas disseram
que haviam feito empréstimo para o prefeito e que as notas promissórias garantiriam o pagamento da dívida. “Mas não tinham contrato, não declararam,
nada”, afirma Luciana.
Notas promissórias
Segundo a delegada, quando o prefeito foi ouvido, a Polícia Federal
estava em posse de duas notas promissórias assinadas por ele. Camandoli informou que estaria pagando 'dívidas' que contraiu com moradores da cidade, por ter pedido
empréstimos. “Sobre uma das notas ele disse que era de dívidas e da outra não quis falar”, detalha a delegada. Ela diz que não pretende ouvi-lo
novamente.
“Pelo o que a gente apurou, a maior parte das notas eram para cargos comissionados em troca de votos. A cidade é pequena e uns 80% dos moradores
trabalham na prefeitura ou em serviços ligados à prefeitura. Tudo gira em torno da prefeitura”, conta Luciana.
No início da
operação, a Polícia Federal pretendia ouvir 79 pessoas, mas conforme a delegada, as outras pessoas foram desconsideradas, pois não havia mais necessidade de
ouvi-las. A investigação apura corrupção eleitoral na cidade. Os trabalhos iniciaram há um ano, a partir da denúncia de um morador, segundo a
Polícia Federal.
Até a publicação desta reportagem, o G1 não havia conseguido contato com o prefeito
Documentos apreendidos
“Foram apreendidas mais de 10 notas promissórias com assinatura que seriam do prefeito e do vice-prefeito e dois
contratos da prefeitura com suspeita de irregularidades, de aluguel de imóveis. Também há duas notas que seriam do ex-prefeito, de 2008”, detalha a
delegada.
Segundo ela, na prefeitura também foram encontradas contas de luz. “Tinham umas 60 de moradores. A gente acredita que tenham sido pagas pelo
prefeito, que ele não conseguiu quitar a dívida e pagou as contas, dava dinheiro picadinho”, afirma.
A delegada que trabalha há 12 anos na
Polícia Federal nunca investigou um caso semelhante. “Uma coisa é só prometer, mas ele prometeu e dava as notas como garantia, com assinatura, documento. Duas
pessoas entraram na Justiça para executar as notas. Uma é no valor de R$ 95 mil em troca de cargo comissionado e outra de R$ 31,2 mil em troca de remédios”,
detalha a delegada.
“Estima-se que R$ 3 milhões em notas tenham sido emitidos. Todo esse valor sairia dos cofres públicos”, afirma o delegado
Alexandre Braga, responsável pela delegacia da Polícia Federal em Itajaí. No entanto, ainda não é possível saber o valor que já teria sido
desembolsado pelos cofres públicos do município que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), possuí 2.312 habitantes.
Funções mantidas
O prefeito segue com suas funções mantidas. Segundo o delegado, não há
previsão, por enquanto, de que seja expedido nenhum mandado de prisão contra os investigados. A Câmara de Vereadores de Presidente Nereu informou que ainda não
definiu se pedirá o afastamento do prefeito.
Expulsão do PT
Em nota, o presidente do Partido dos Trabalhadores de
Santa Catarina, Claudio Vignatti, anunciou que vai expulsar o Prefeito de Presidente Nereu, Antonio Camandoli, do partido.