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27/05/2016 | 08:45 | Política

Em nova gravação, Renan orienta defesa de Delcídio Amaral

Presidente do Senado conversa com um emissário do parlamentar que teve mandato cassado

Presidente do Senado conversa com um emissário do parlamentar que teve mandato cassado
Renan Calheiros (Foto: Antonio Cruz/ABr)
Uma nova gravação feita pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, delator da Operação Lava Jato, mostra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), em conversa datada de 24 de fevereiro. No diálogo, ele faz orientações a uma pessoa identificada como Wanderberg, que seria representante de Delcídio Amaral (sem partido-MS). O tema da conversa era a defesa do então senador, que na época enfrentava processo ainda pelo Conselho de Ética da Casa e já havia se tornado delator da Lava-Jato — sem que Renan soubesse. A gravação foi divulgada nesta quinta-feira pelo Jornal Hoje, da Rede Globo.
Em um dos trechos, o presidente do Senado diz ser necessário que o presidente do conselho, senador João Alberto Souza (PMDB-MA), peça diligências para não parecer que a investigação está parada. Ele sugere que Delcídio deveria fazer uma carta mostrando humildade e dizendo que já pagou o preço pelo que fez:
Renan — O que que ele (Delcídio) tem que fazer... Fazer uma carta, submeter a várias pessoas, fazer uma coisa humilde... Que já pagou um preço pelo que fez, foi preso tantos dias... Família pagou... A mulher pagou...
Wanderberg — Ele (Delcídio) só vai entregar à comissão, fazer essa carta e vai embora.
Renan — Conselho de Ética. Falei agora com o João (João Alberto, presidente do Conselho de Ética). O João, ele fica lá ouvindo os caras... O Conselho de Ética não tem elementos para levar processo adiante. Também é ruim dizer que não vai levar o processo adiante. Então, o Conselho de Ética tem que requerer diligências, requisição de peças e, enquanto isso não chegar, fica lá parado...
Wanderberg — (João Alberto) vai colocar em votação e vai ter uma derrota antecipada...
Por meio de nota, a assessoria de Renan afirmou que o presidente do Senado acelerou o processo de cassação de Delcídio e que o processo do ex-petista não ficou parado no Conselho de Ética.
"O senador (Renan Calheiros) lembra que acelerou o processo de cassação no plenário às vésperas da votação do impeachment. O desfecho do processo de cassação é conhecido, foi público e a agilização do processo foi destaque em vários jornais. Na fase do Conselho de Ética opinou com um amigo do ex-senador, mas disse que o processo não podia ficar parado, como não ficou", diz o texto da nota.
Procurador-geral e outros políticos são citados
Em outra gravação de Machado, em 11 de março, também divulgada pelo Jornal Hoje, o ex-presidente da Transpetro conversa com Renan. Eles falam sobre o procurador-geral da república, Rodrigo Janot, citando uma "fórmula de dar um chega pra lá nessa negociação ampla, para poder segurar esse pessoal". O diálogo inclui críticas a vários políticos: senador Aécio Neves, presidente do PSDB; o deputado Pauderney Avelino (AM), líder do DEM; "Mendoncinha", como é chamado o agora ministro da Educação, deputado Mendonça Filho (DEM-PE); senador José Agripino (RN), presidente do DEM; senador Fernando Bezerra (PSB-PE); senador José Serra (PSDB-SP), atual ministro das Relações Exteriores, e a presidente afastada Dilma Rousseff (PT).
Sérgio Machado — Agora esse Janot, Renan, é o maior mau caráter da face da terra.
Renan — Mau caráter! Mau caráter! E faz tudo que essa força-tarefa (Lava-Jato) quer.
Sérgio Machado —  É, ele não manda. E ele é mau caráter. E ele quer sair como herói. E tem que se encontrar uma fórmula de dar um chega pra lá nessa negociação ampla pra poder segurar esse pessoal (Lava-Jato). Eles estão se achando o dono do mundo.
Renan — Dono do mundo.
Sérgio Machado —  E o PSDB pensava que não, mas o Aécio agora sabe. O Aécio, Renan, é o cara mais vulnerável do mundo.
Renan — É...
Sérgio Machado —  O Aécio é vulnerabilíssimo. Vulnerabilíssimo! Há muito tempo.
Sérgio Machado — Como que você tem cara de pau, Renan, aquele cara Pauderney que agora virou herói. Um cara mais corrupto que aquele não existe, Pauderney Avelino.
Renan — Pauderney Avelino.
Renan — Mendocinha.
Sérgio Machado — Mendocinha, todo mundo pô? Que *** é essa querer ser agora o dono da verdade?
Sérgio Machado — O Zé (Zé Agripino) é outro que pode ser parceiro, não é possível que ele vá fazer maluquice.
Renan — O Zé, nós combinamos de botá-lo na roda. Eu disse ao Aécio e ao Serra. Que no próximo encontro que a gente tiver tem que botar o Zé Agripino e o Fernando Bezerra. Eu acho.
Sérgio Machado — O PSB virou uma oposição radical. O Zé não tem como não entrar na roda.
Renan — O PSB quer o impeachment, mas o Fernando (Bezerra) é um cara bom.
Sérgio Machado — Porque também entende disso que a gente está falando.
Renan — É.
Sérgio Machado — Porque tem que tomar cuidado porque esse *** desse Noblat (referindo-se ao colunista Ricardo Noblat, do jornal O Globo) botou que essa coisa de tirar a Dilma é maneira de salvar os corruptos.
Renan — Tirar a Dilma? Manter a Dilma?
Sérgio Machado — Tirar a Dilma. Que é um processo de salvação, de salvação.
Renan — Que é a lógica que ela fez o tempo todo.
Sérgio Machado — É porque esse processo. Porque, Renan, vou dizer o seguinte: dos políticos do Congresso, se "sobrar" cinco que não fez é muito. Governador, nenhum. Não tem como, Renan.
Renan — Não tem como sobreviver.
Sérgio Machado — Não tinha como sobreviver.
Renan — Tem não.
Sérgio Machado — Não tem como sobreviver. Porque não é só, é a eleição e a manutenção toda do processo.
Renan — É.
Em uma outra gravação, Machado ainda acusa Janot de trabalhar para que ele seja julgado pelo juiz Sergio Moro:
Sérgio Machado — O que eu quero conversar contigo... Ele não tem nada de você, nem de mim... O Janot é um **** da maior, da maior.
Renan — Eu sei. Janot e aquele cara da... Força-tarefa...
Sérgio Machado — Mas o Janot tem certeza que eu sou o caixa de vocês. Então o que ele quer fazer. Não encontrou nada e nem vai encontrar nada. Então quer me desvincular de você. (...) Ele acha que, no Moro, o Moro vai me prender, e aí quebra a resistência e aí... Então a gente precisa ver, andei conversando com o presidente Sarney, como a gente encontra uma... Porque se me jogar lá embaixo eu estou ***.
Renan — Isso não pode acontecer.
Outro lado
À reportagem, a defesa de Sérgio Machado disse que os autos são sigilosos e que, por isso, não pode se manifestar. A defesa de Dilma afirmou que ela jamais pediu qualquer tipo de favor que afrontasse o princípio da moralidade pública.
O líder do DEM na câmara, deputado Pauderney Avelino, disse que nunca conversou com Machado e nem indicou qualquer diretor para a Petrobras ou qualquer estatal. Para ele, o caso foi uma citação lamentável, de uma pessoa desesperada.
O ministro da Educação, Mendonça Filho, afirmou que as gravações comprovam que ele não está incluído nas irregularidades investigadas e que sua atuação como líder oposicionista ao governo do PT incomodou.
O senador João Alberto disse estar surpreso com as citações e que cumpriu com todas as obrigações dentro do Conselho de Ética. O senador Fernando Bezerra, que é investigado na Lava-Jato, afirmou que não vai comentar uma eventual conversa de terceiros cujo conteúdo desconhece. Já o senador José Agripino disse que nunca teve nenhuma conversa com Renan, nem com Sérgio Machado, em que o assunto Lava- Jato fosse sequer mencionado.
A reportagem do Jornal Hoje não obteve retorno do ministro José Serra e do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot. O jornalista Ricardo Noblat não vai se manifestar. O PSDB disse que não existe nas gravações qualquer acusação ao partido ou ao senador Aécio Neves.
Por sua vez, o PMDB alegou que sempre arrecadou recursos seguindo os parâmetros legais em vigência no país e que doações de empresas eram permitidas e perfeitamente de acordo com as normas da justiça eleitoral nas eleições citadas.
Fonte: Rádio Gaúcha
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