A presidente
da República afastada, Dilma Rousseff, falou por 14 horas na sessão do impeachment do Senado nesta segunda-feira (29). Após fazer um discurso de defesa, que durou 45
minutos, a petista respondeu a questionamentos de 48 senadores. Apesar de a sessão estar lotada, inclusive com uma plateia de críticos e apoiadores de Dilma, não houve
registro de tumulto, situação recorrente nos outros dias de debate sobre o tema na Casa.
Dilma reiterou que considera o seu afastamento um "golpe
de Estado". Ela negou que tenha cometido crime de responsabilidade fiscal, motivo pela qual virou ré. Também aproveitou as perguntas para enumerar programas desenvolvidos
em seu governo, com foco em conquistas sociais.
A presidente afastada não poupou críticas ao deputado Eduardo Cunha (PMDB), responsável por
abrir o processo de impeachment quando no exercício da presidência da Câmara. Ela defendeu que ele foi responsável por uma "aliança golpista".
"Contrariei interesses, por isso paguei e pago um elevado preço", justificou. O deputado lançou uma nota afirmando que Dilma "segue mentindo
contumazmente".
A presidente afastada criticou a demora no julgamento da cassação do mandato de Cunha, e também alfinetou o presidente interino,
Michel Temer, a quem chamou de “usurpador”. A petista reiterou que, caso o governo de seu vice se torne definitivo, será resultado de uma “eleição
indireta”.
No discurso e nas respostas aos senadores, Dilma lembrou a sua luta contra a ditadura militar, quando foi presa e torturada. Com olhos marejados,
também trouxe a lembrança de sua luta contra o câncer. Ela ainda referiu aos ex-presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart, fazendo
alusão aos movimentos articulados para abreviar seus governos.
Um dos principais embates do dia ocorreu entre Dilma e o senador Aécio Neves (PSDB),
derrotado por ela na última eleição. O tucano a acusou de se reeleger “faltando com a verdade e cometendo ilegalidades”. Ele perguntou sobre a
dimensão da crise econômica, e se a presidente afastada se sentia responsável pela situação.
A resposta de Dilma também
incluiu provocações. "A partir do dia seguinte à minha eleição, uma série de medidas políticas para desestabilizar o meu governo foram
tomadas, infelizmente. Primeiro, pediu-se a recontagem dos votos, depois auditoria nas urnas. Nos dois casos verificou-se que não tinha irregularidade", afirmou.
Ainda em resposta a Aécio, a presidente afastada citou as "pautas bomba" (medidas que aumentavam as despesas do governo), colocadas em votação
no Congresso. E argumentou que condições alheias à sua gestão agravaram a crise econômica, explicando também que o aumento das tarifas de energia
teria ocorrido pela escassez atípica de água em 2015.
A defesa de Dilma ocorreu no quarto de dia da sessão do impeachment. O processo voltará
a ser analisado na manhã desta terça-feira (30), quando os parlamentares começarão a encaminhar o voto. Cada um dos 81 titulares terá direito a falar por
até 10 minutos. Os advogados de acusação e defesa falarão antes, por até 1h30min, com mais uma hora de réplica e uma hora de
tréplica.
A previsão é de que a votação final ocorrerá na quarta-feira (31). Para que Dilma seja afastada definitivamente,
são necessários ao menos 54 votos. Caso o número não seja alcançado, ela retornará à presidência imediatamente.