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| 17:32 | Segurança 12 min de leitura

Sequestro, suicídio e até briga de vizinhos: os passos da investigação do sumiço de bancário em Anta Gorda

GaúchaZH teve acesso ao inquérito que busca esclarecer o que aconteceu com Jacir Potrich, 55 anos. Apuração acumula mais de 300 páginas

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GaúchaZH teve acesso ao inquérito que busca esclarecer o que aconteceu com Jacir Potrich, 55 anos.  Apuração acumula mais de 300 páginas
Imóvel onde fica o Sicredi é em frente à antiga sede - Hygino Vasconcellos / Agência RBS
Para desvendar o desaparecimento do gerente do Sicredi, Jacir Potrich, 55 anos, a polícia se lançou a uma verdadeira trama de possibilidades. De sequestro, suicídio, até chegar a uma briga de vizinhos. Uma a uma, as hipóteses foram esmiuçadas. Algumas ganharam força. Outras, foram descartadas por falta de indícios. A movimentação dos policiais no caso — que na próxima semana completa três meses — jogou os holofotes para a pequena Anta Gorda, município no Vale do Taquari com pouco mais de 6 mil habitantes.
Após perder o caráter sigiloso, GaúchaZH teve acesso ao inquérito entregue à Justiça. Das 302 páginas, 48 são de operações bancárias suspeitas realizadas por clientes do Sicredi. As informações foram exigidas pela polícia e entregues no dia seguinte à solicitação, em 13 de dezembro. Consta também montagem de imagens de câmeras com os últimos passos de Potrich: a saída do banco, a passada rápida em casa no meio da tarde, e o retorno da pescaria às 19h07min. Foram obtidas gravações de pelo menos sete locais diferentes.  
As imagens ajudaram a polícia a entender o que pode ter acontecido no condomínio, construído por Potrich com outros dois amigos — o dentista Carlos Alberto Weber Patussi, 52 anos, e um empresário. 
Na época, outras versões estavam sendo investigadas. Patussi, que teria se desentendido com o bancário por causa de uma desavença financeira, não virou o alvo número um. Só em 17 de janeiro, o delegado Guilherme Pacífico pediu a prisão do dentista, autorizada pela Justiça quatro dias depois. O homem foi preso em Capão da Canoa, no Litoral Norte, em 23 de janeiro. Ele foi solto após a defesa ingressar com um pedido de habeas corpus no Tribunal de Justiça (TJ-RS) no dia 31.  
Após quase três meses à frente das investigações do desaparecimento, o delegado Guilherme Pacífico deixou o caso na última sexta-feira (1º). Natural do Espírito Santo, o policial retorna à terra natal para  assumir a subchefia da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (SESP). No lugar dele ficará o delegado Márcio Marodin, que também trabalhava em Soledade. 
Entenda os passos da investigação que culminaram na prisão, e depois soltura, do vizinho de Potrich: 
1- Sequestro de gerente 
Inicialmente, a polícia tratou o caso como sequestro com intuito de obter vantagem financeira. Por isso, a Delegacia de Roubos do Departamento Estadual de Investigação Criminais (Deic) passou a atuar com a polícia local. A hipótese ganhava força pelo fato de Potrich ser gerente de banco. No dia seguinte ao paradeiro, era esperada a chegada de um carro-forte no Sicredi. Com o sumiço do bancário, a rota do veículo foi alterada e chegou à cidade duas horas mais tarde. Das 13h passou para as 15h.  
Além do banco, a polícia se ateve ao condomínio onde a família morava. Buscas foram feitas com cães farejadores. Até um açude do residencial foi esvaziado. Na época, os investigadores cogitaram a possibilidade de os criminosos terem acessado o terreno por uma parte dos fundos, onde não há monitoramento. Mas não foram localizados sinais de passagens recentes, nem danos  na cerca.  Com o passar dos dias e sem pedido de resgate, a hipótese de sequestro foi descartada.
2- Suicídio
O sumiço repentino do bancário também lançou luzes para hipótese de suicídio. As investigações mostraram que em 13 de novembro, dia do desaparecimento, Potrich seguiu a rotina normalmente. Chegou à agência no horário de sempre, almoçou em casa, foi a uma pescaria. No retorno, limpou peixes no quiosque do condomínio e tomou uma caipirinha.
Mas objetos deixados sujos fizeram a família desconfiar que os últimos momentos dele fugiram ao habitual. Um funcionário do condomínio constatou que o bancário pescou dois tipos de peixes. No freezer, Potrich guardou jundiás, já limpos. Na bancada de serviço, havia escamas de carpas. 
"Possivelmente, durante a limpeza das carpas, aconteceu o desaparecimento de Potrich", observa a polícia no inquérito. Além disso, facas e outros utensílios deixaram de ser limpos, o que fugiu à personalidade de Potrich, classificado como "metódico e sistemático" segundo as testemunhas. 
Os investigadores ouviram uma série de pessoas que relatam que Potrich e a mulher, Adriane Balestreri Potrich, 53 anos, viviam "ótimo momento pessoal, profissional e financeiro", segundo inquérito. "Jacir gozava de boa saúde e estava emocionalmente estável, não recaindo nenhuma suspeição ou motivação para possível suicídio", acrescenta. 
Para a polícia, o suspeito do crime — Carlos Patussi — tinha a intenção de mostrar que "Jacir seguiu a rotina e após terminar, decidiu sumir, cometer suicídio".
3 - Vingança de cliente com dívidas  
Um homem que perdeu terras para o Sicredi também acabou na mira da polícia. Preso diversas vezes por tráfico de drogas, o suspeito já havia ameaçado o bancário de morte —está em prisão domiciliar desde maio. Potrich ia pessoalmente fazer cobranças a devedores "nutrindo desafetos ao longo dessas práticas", salienta o relatório da polícia. 
No dia do desaparecimento, funcionários do Sicredi realizaram pessoalmente uma cobrança a dois fiadores do homem "sendo recebidos de forma agressiva", conforme inquérito. 
Devido à suspeita, os telefones do ex-cliente e de outras duas pessoas foram interceptados pela polícia em 19 de novembro, com autorização da Justiça. A intenção era identificar alguma possível extorsão. "Não apareceram elementos de suspeição sobre ele e envolvimento no caso", apontou o inquérito. A polícia também conseguiu descobrir que o investigado não estava na cidade no dia do sumiço.
4 - Quadrilha de estelionatários 
As investigações apontaram ainda para um grupo de estelionatários, que atuava em todo o Estado, mas tinha base em Anta Gorda. “A referida quadrilha executa suas ações abrindo empresas, adquirindo produtos, realizando os primeiros pagamentos e, na sequência, realizando compras maiores e deixando de efetuar o pagamento, lesando numerosas vítimas”, diz o relatório da polícia.  
Os investigadores identificaram o pagamento em um agente credenciado (máquina de pagamento de títulos) instalada no escritório de contabilidade da mulher de Potrich e do filho do casal, Vinicíus Ballestreli Potrich.  
“Constatamos que Jacir Potrich tomou conhecimento dos fatos e que aconselhou Adriane e Vinícius a não mais aceitar qualquer tipo de pagamento efetuado pelos suspeitos, enfatizando que tomaria providência para denunciar a quadrilha.” 
Na época, o delegado pediu a interceptação telefônica de oito números de membros do grupo de estelionatários, o que foi atendido pela juíza Jacqueline Bervian. Nenhum indício que ligasse os integrantes da quadrilha ao sumiço de Potrich foi encontrado. 
5 - Possível envolvimento de família de nora 
Nem mesmo a família da nora de Potrich escapou do crivo da polícia. Segundo a investigação, familiares da jovem têm "envolvimento em crimes graves". O pai dela está em prisão domiciliar e têm antecedentes por estelionato, sequestro, homicídio, ameaças, lesões corporais, entre outros.  
Além disso, a abertura de duas franquias de café pelo filho dele também foi alvo de investigação. O dinheiro para o negócio havia sido emprestado por Jacir — R$ 600 mil para uma unidade em Passo Fundo e mais R$ 450 mil em Erechim. 
"Informações deram conta que Jacir não estava satisfeito com a forma que o dinheiro seria restituído, nem com a sociedade da franquia" de Erechim,  no qual figuravam como sócios Samara, um dos irmãos dela e sua mãe. 
A polícia grampeou o telefone da família da jovem, mas após cerca de 15 dias, foi descartado o envolvimento deles no sumiço.  
O relacionamento de Vinicius com Samara era aprovado pelo bancário, apesar de ele achar muito recente a relação. Além disso, o bancário acreditava que o casamento, que estava programado para fevereiro, "era muito pomposo, fora de seus padrões", pois aconteceria em Jurerê Internacional, em Santa Catarina. O gerente queria que a festa fosse em Anta Gorda, com a presença de amigos. Devido ao desaparecimento do bancário, o matrimônio acabou sendo cancelado. 
6 - Vingança
A vinda repentina de um parente do Mato Grosso do Sul para Anta Gorda também intrigou a polícia. O sobrinho de Potrich, Arthur Gonçalves Balestreri, chegou à cidade em abril do ano passado — sete meses antes do sumiço do bancário. Recém-formado em contabilidade, o jovem afirmou em depoimento à polícia que recebeu um convite de Adriane para trabalhar no escritório. Arthur passou a morar na casa dos tios e, segundo relatou à polícia, era tratado como "filho". 
O pai do jovem, Valdir Balestreri, foi morto em 2004 em Campo Grande e o caso nunca foi solucionado. Natural de Anta Gorda,  foi para o Centro-Oeste trabalhar como veterinário para uma família gaúcha. Acabou sendo demitido e ingressou com uma ação trabalhista. Logo depois, foi assassinado.  Na época em que Potrich desapareceu, ocorreu o último julgamento que determinou o pagamento de R$ 800 mil à família de Valdir.
"Informações deram conta que Jacir interviu nas investigações da morte de Valdir, bem como na ação trabalhista, o que teria desagradado aos herdeiros." A polícia chegou a suspeitar que o desaparecimento do gerente do Sicredi pudesse ser uma vingança da família Balestreri. 
No dia do desaparecimento, o sobrinho trabalhou no escritório da tia. Depois, foi a um salão pintar os cabelos. Imagens de câmera de segurança mostram Arthur chegando ao condomínio às 20h29min, quando nota a ausência de Potrich. Ele telefona para Adriane, que está na casa do filho, em Passo Fundo. A mulher tranquiliza o sobrinho. 
"Era o dia do tio sair para pescar ou caçar rãs, e que ele não teria hora para chegar", disse Adriane à polícia.  
Após 40 minutos, câmeras gravam Arthur saindo da residência pela parte da frente, após ouvir barulhos na maçaneta. Em depoimento, o jovem relatou que ficou em casa vendo séries e só foi dormir às 00h40min.
A hipótese de uma vingança do Mato Grosso do Sul é descartada no começo de dezembro, a partir de documentos aos quais a polícia teve acesso — não há detalhes sobre o conteúdo deste material.
7 - Briga de vizinhos
Um dia após o paradeiro do bancário, os investigadores já sabiam da desavença entre Potrich e o vizinho Carlos Alberto Weber Patussi. Com o passar dos dias, a desconfiança em relação ao homem foi crescendo. Os investigadores notaram resistência dele em dar aos policiais o computador no qual estavam imagens de câmeras de segurança. Os agentes tiveram ajuda do outro morador, considerado o apaziguador da rivalidade entre os dois, para ter acesso ao material.  
Horas depois, Patussi exigiu a entrega da memória alegando fragilidade na segurança do condomínio. “Esse momento foi o único em que Patussi se aproximou de algum agente que trabalhou na investigação”, pontua o inquérito.
Devido ao tempo limitado, os investigadores só conseguiram copiar as imagens do período das 19h às 00h01min. Uma testemunha afirmou que, após a devolução, o equipamento foi trocado por Patussi. Para a polícia o gesto foi entendido como uma forma de “eliminar provas contra si”.   
A partir das imagens, a polícia concluiu que Patussi foi a última pessoa a ver Potrich vivo no quiosque, após o bancário chegar de uma pescaria. Além dele, estava no condomínio a mulher do dentista, que entra em casa, toma banho e sai para um curso em Porto Alegre. Ela permanece no local por 37 minutos. As câmeras gravam o momento em que Patussi volta do quiosque, sobe no telhado, analisa o local, desce e mexe em duas câmeras. Uma delas é apontada para o alto e outro acaba sendo desligada.  
Segundo a polícia, o dentista apresentou versões diferentes para a movimentação dos equipamentos, justificando uma “limpeza das câmeras”, citando teias de aranha ou retirada de ninhos de pássaros. Para os investigadores o motivo era outro: “alterar o foco, intencionalmente, impedindo que a parte dos fundos de sua casa fosse vigiada, permitindo assim a livre circulação, após aquela movimentação suspeita flagrada”.  
O desinteresse de Patussi pelo desaparecimento do vizinho fizeram dele um suspeito. As imagens comprovam que o homem tentou agilizar a saída da mulher do condomínio, manobrando o carro dela. Segundo depoimento dela, o marido estava “nervoso, ansioso, insistindo para que ela fosse para Porto Alegre logo, pois teria um temporal”. 
“Mas o principal fato que nos leva à derradeira culpabilidade de Patussi foi a ação de obstrução de captação de imagens de videomonitoramento. Resta-se claro, que a intenção de Patussi era de eliminar as câmeras, para, a posteriori, dar destino/ocultação ao corpo.” 
As interceptações telefônicas permitiram que a polícia identificasse “contradições” de Patussi, além de “mudanças de comportamento e criação de álibis para atrapalhar o serviço policial”. Durante as buscas no condomínio, realizadas por dois dias seguidos, todas as ações policiais eram relatadas a Patussi por um funcionário dele.  
Uma das contradições do dentista era que ele teria subido ao telhado para verificar o serviço realizado pelo pintor na caixa d’água. Os investigadores constataram que não houve preocupação em analisar o serviço, a ponto de ele encostar na parede da chaminé – que deveria estar com tinta fresca. “Não estava agindo normalmente.”
Entre as razões apontadas para o dentista ser considerado suspeito por matar Potrich está uma desavença antiga decorrente da troca de endereço da sede do Sicredi. O antigo imóvel fica em frente ao local atual, próximo da praça principal da cidade, e é de propriedade do dentista. Segundo testemunhas ouvidas pela polícia, Patussi se sentiu “traído por não ter sido avisado da troca de endereço”. 
GaúchaZH teve acesso a matrícula do imóvel, no qual consta que a sala comercial tem 178 metros quadrados e está avaliada em R$ 196 mil. Hoje, funciona no local um empresa de informática.
O que diz a defesa de Patussi
O advogado do dentista, Paulo Olimpio Gomes de Souza, nega que Patussi tenha demonstrado resistência em entregar as gravações e salienta que houve seleção das imagens, fazendo com que fosse "desprezadas outras que o mostravam em situação de naturalidade". 
Olimpio reforçou que era hábito de seu cliente subir ao telhado, inclusive quando estavam sendo feitos serviços na casa. O advogado negou que o dentista tenha manobrado o carro da mulher para agilizar a saída dela.  
—Fazia isso sistematicamente. Ela não gostava de fazer essa manobra no carro.  
Além disso, o advogado salienta que os dois não se encontraram no quiosque e que o local não era monitorado por câmeras.

Fonte: Gaúcha ZH

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