Facebook Instagram X WhatsApp


| 05:50 | Praia Notícias | Geral 11 min de leitura

Megaleilão reabre o debate sobre uso do pré-sal para alavancar país

Disputa na quarta-feira promete arrecadação inicial de R$ 106 bilhões, mas é o potencial de receita de mais R$ 600 bilhões que coloca em discussão rumos para o desenvolvimento

Compartilhar:
Disputa na quarta-feira promete arrecadação inicial de R$ 106 bilhões, mas é o potencial de receita de mais R$ 600 bilhões que coloca em discussão rumos para o desenvolvimento
Navio-plataforma Cidade do Itaguaí começou a operar em área do pré-sal em 2015 - Agência Petrobras / Agência Petrobras
Uma década após ser apresentado como passaporte ao futuro do país, o pré-sal enfrenta novo teste. Na quarta-feira (6), o governo Jair Bolsonaro promove megaleilão de quatro áreas de exploração de petróleo e gás natural da Bacia de Santos, no litoral do Rio de Janeiro. A oferta das reservas reacende o debate sobre a capacidade do país de superar entraves e acelerar seu desenvolvimento.
Se as quatro áreas forem negociadas no leilão, considerado o maior do setor na história do país, a arrecadação inicial ficará em R$ 106,6 bilhões. Esse valor recebe o nome de bônus de assinatura e é pago por empresas em troca da permissão para explorar petróleo e gás natural. Como a quantia é fixada previamente, os grupos vencedores serão aqueles que oferecerem os maiores percentuais de ganho ao governo brasileiro após o início da produção — medida chamada de óleo-lucro. Há expectativa de que os contratos gerem receita de até R$ 628 bilhões aos cofres públicos em 35 anos.
O bônus de assinatura será repartido entre União, Petrobras, Estados e municípios. Os dois últimos devem usar os repasses para despesas previdenciárias e investimentos. Já a União pretende destinar os recursos para aliviar as contas públicas. Segundo especialistas, a principal questão é saber como o país cuidará da receita que virá no futuro com o pré-sal. A descoberta dessa camada reserva de petróleo e gás natural foi anunciada em 2006.
— O petróleo é finito. Por isso, é necessário que o país guarde recursos que entrarão nos anos seguintes para fazer investimentos, e não apenas para despesas correntes (custeio da máquina pública). A ideia é que se crie algo de futuro, o que não tem sido visto até o momento — sublinha o analista de petróleo e gás da Tendências Consultoria Walter de Vitto.
O que vai a leilão corresponde ao excedente da cessão onerosa negociada, em 2010, pelo governo federal com a Petrobras (leia abaixo). A estimativa acertada na época era de 5 bilhões de barris de óleo equivalente (petróleo e gás natural). Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), os dados atuais são de 6 bilhões a 15 bilhões de barris.
— É a grande oportunidade para petroleiras gigantes disputarem reservas com poucos riscos geológicos. Não existem muitas áreas assim no mundo. A maioria é inacessível, em países como Irã e Arábia Saudita, não abertos ao capital privado — observa o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Luís Eduardo Duque Dutra.
Segundo a ANP, a produção média de petróleo e gás natural do pré-sal alcançou, em setembro, 2,3 milhões de barris equivalentes por dia. Isso quer dizer que, no período, essas reservas responderam por 61,3% da extração no país.
Com o megaleilão, a estimativa é de salto na produção. Conforme a ANP, a previsão é de que apenas o excedente da cessão onerosa alcance 1,2 milhão de barris por dia.
— Quando a maior parte dos recursos do leilão entrar, o país deverá estar em uma situação melhor. Além de reservar uma parte do dinheiro para investimento, outra parcela precisa ser destinada à prevenção de desastres naturais — diz Dutra, em um momento em que há crise ambiental no Nordeste.
Embora desperte a simpatia de analistas e setores do mercado financeiro, o megaleilão também encontra resistências. Presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras, Felipe Coutinho faz críticas à oferta a petroleiras do Exterior. São 14 companhias habilitadas para a disputa, inclusive a Petrobras — duas já desistiram.
— A oferta é inoportuna e lesiva. A aceleração dos leilões tem sido feita para se apropriar dos bônus de assinatura, com alto desconto dos resultados futuros. Promove a aceleração das exportações. É algo do tipo colonial — pontua Coutinho.
Como será o processo de negociação
O que é cessão onerosa?
Em 2010, a Petrobras vendeu ações na bolsa de valores para cobrir investimentos na exploração do pré-sal. Para não diminuir sua participação na companhia, o governo teria de desembolsar grande quantidade de recursos. Diante do impasse, o Planalto buscou outra opção.
À época, cedeu à Petrobras, sem licitação, o direito de produzir 5 bilhões de barris de óleo equivalente (petróleo e gás natural) em áreas inexploradas do pré-sal, na Bacia de Santos. Em troca, recebeu novas ações da companhia. Esse acordo foi batizado de cessão onerosa.
Com o passar dos anos, levantamentos indicaram que as reservas existentes são superiores aos 5 bilhões de barris. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), estimativas sinalizam para 6 bilhões a 15 bilhões. Correspondem aos chamados excedentes da cessão onerosa, que serão oferecidos a investidores no megaleilão da próxima quarta-feira. Estão distribuídos em quatro áreas da Bacia de Santos: Búzios, Sépia, Atapu e Itapu.
Qual a projeção de receita do megaleilão?
Se as quatro áreas forem negociadas no megaleilão, considerado o maior do setor na história do país, a arrecadação inicial ficará em R$ 106,6 bilhões. Esse valor recebe o nome de bônus de assinatura e é pago por empresas em troca da permissão para exploração de petróleo e gás natural. A principal área a ser ofertada é a de Búzios, que exigirá aporte de investidores de R$ 68,19 bilhões. Depois, vêm Sépia (R$ 22,86 bilhões), Atapu (R$ 13,74 bilhões) e Itapu (R$ 1,77 bilhão). Como o valor do bônus de assinatura é fixo, os grupos vencedores do leilão serão aqueles que oferecerem os maiores percentuais de ganho ao governo brasileiro após o início da produção – medida chamada de óleo-lucro. A expectativa é de que os contratos gerem receita de até R$ 628 bilhões aos cofres públicos em 35 anos.
Inovações tecnológicas reduzem custo de extração
Ao longo dos últimos anos, o pré-sal ganhou fôlego e virou a principal fonte de petróleo e gás no país. Em setembro, 2,3 milhões de barris de óleo equivalente foram extraídos dessa camada de rochas sedimentares, quantia correspondente a 61,3% do total. Em dezembro de 2014, ano de início da série histórica da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), esse percentual era de 25,5%.
Segundo a ANP, a produção do pré-sal superou a do pós-sal em dezembro de 2017. O aumento da fatia é explicado por conjunto de fatores. Segundo especialistas, o petróleo do pré-sal costuma ser retirado de poços com produtividade mais elevada. Além disso, ao longo dos anos, houve avanços na tecnologia de exploração da Petrobras. A combinação resultou na baixa do custo médio de extração, que passou de US$ 9,10 por barril, em 2014, para menos de US$ 7, em 2018.
— A descoberta do pré-sal foi, sem dúvida, uma bênção para o país. No início, falava-se que a soma das reservas seria de cerca de 100 bilhões de barris. Os resultados estão em linha com o esperado. Agora, temos de ver se o país terá maturidade para explorar as reservas de maneira benéfica — sublinha o analista Walter de Vitto, da Tendências Consultoria.
Ao longo da década, o setor de óleo e gás sentiu efeitos da redução no preço do petróleo no mercado internacional. Hoje, o barril do tipo brent está na casa dos US$ 55, depois de alcançar US$ 37,04 ao final de 2015, apontam dados da agência americana US Energy Information Administration (EIA). No início da década, chegou a US$ 98,83. Para analistas, os ganhos de produtividade do pré-sal nos últimos anos ajudaram a amenizar a diminuição dos preços de referência.
— A descoberta do pré-sal foi gigante. No início dos anos 2000, ninguém imaginava que isso poderia ocorrer. A questão é que, após a descoberta, falhamos por ficar parados por um tempo, limitar a ação da Petrobras e continuar gastando receitas extraordinárias para fechar balanços — descreve o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Luís Eduardo Duque Dutra, especialista no setor de petróleo e gás.
Presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras, Felipe Coutinho também destaca o avanço da produção do pré-sal, mas diz que o uso dos recursos gerados pela exploração “deixou a desejar”.
— O pré-sal é um sucesso do ponto de vista de qualidade natural. A produção foi acelerada — ressalva Coutinho.
Divisão do dinheiro
Em outubro, o Congresso aprovou projeto que define a repartição dos R$ 106,6 bilhões do bônus de assinatura.
A Petrobras, que tem o direito de exploração das áreas, deverá receber cerca de R$ 34,6 bilhões.
Do restante, 15% (R$ 11 bilhões) ficarão com Estados e Distrito Federal e outros 15% com municípios. O Rio de Janeiro terá fatia maior do que os demais, de 3% (R$ 2 bilhões), por proximidade com as áreas leiloadas.
Os outros 67% ficarão com a União (R$ 48,8 bilhões), que foi pressionada a dividir os valores com os entes federativos.
Quanto o governo do RS e os municípios gaúchos deverão receber?
O governo do Estado poderá contar com cerca de R$ 450 milhões. Já os repasses às 497 prefeituras deverão somar R$ 737,7 milhões, segundo estimativa da Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Porto Alegre terá R$ 29,4 milhões.
Entre as prefeituras, a distribuição segue critérios do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
As prefeituras poderão destinar os repasses a despesa previdenciária ou investimento.
Nos Estados, o texto prioriza a previdência em detrimento dos aportes. 
A história do “futuro do Brasil”
2006: Cinco décadas após a fundação da Petrobras (1953), o potencial de pré-sal é descoberto na Bacia de Santos. O anúncio provoca entusiasmo, mas não espanta todas as dúvidas sobre a capacidade do país de retirar petróleo e gás natural de uma profundidade de até 7 mil metros.
2008: A Petrobras inicia testes de produção do pré-sal na Bacia de Campos.
2009: A Petrobras inicia, também na Bacia de Santos, a produção do pré-sal. O então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirma que a descoberta das reservas é “passaporte para o futuro” do Brasil.
2010: Uma cerimônia com a presença de Lula no litoral do Espírito Santo simboliza o início da produção do pré-sal em escala comercial. A Petrobras fecha o ano com a extração média de 41 mil barris de petróleo por dia. O governo federal concede à companhia, sem licitação, o direito de explorar até 5 bilhões de barris de óleo equivalente (soma de petróleo e gás natural) no pré-sal. Com a medida, cria-se a chamada cessão onerosa.
2014: É deflagrada a Operação Lava-Jato, que aponta esquema de irregularidades na estatal petrolífera. O preço do petróleo tem queda no mercado internacional. Analistas veem riscos à viabilidade do pré-sal, já que a extração de óleo em profundidade maior tende a exigir investimentos mais elevados. Mesmo com a investigação, a Petrobras alcança a produção de 500 mil barris de petróleo do pré-sal por dia.
2016: A atividade segue em alta. Por dia, a Petrobras passa a produzir, em média, 1 milhão de barris de petróleo do pré-sal. Em parte, a alta é atribuída a avanços tecnológicos que reduzem o custo de extração. Isso também compensa a queda no preço da commodity no mercado internacional. Segundo a companhia, o custo médio de extração do pré-sal passa de US$ 9,1 por barril, em 2014, para menos de US$ 8, em 2016 – em 2018, atinge valor inferior a US$ 7.
2017: Em dezembro, pela primeira vez, a produção de petróleo e gás do pré-sal supera a do pós-sal no Brasil, indica a Agência Nacional do Petróleo (ANP). A Petrobras afirma ter encurtado para cerca de cem dias o tempo de instalação de poços do pré-sal. Sete anos antes, em 2010, a tarefa levava em torno de 300 dias, segundo a estatal.
2018: Ao completar 10 anos de operação no pré-sal, a Petrobras alcança a média diária de 1,5 milhão de barris de petróleo produzidos, em média.
2019: A extração ganha fôlego. Segundo a ANP, em setembro, a produção de petróleo e gás natural do pré-sal atinge 2,3 milhões de barris por dia, que correspondem a 61,3% do total extraído no país. Ou seja, mais da metade da atividade. O governo Jair Bolsonaro marca para 6 de novembro o megaleilão do pré-sal, que pretende leiloar quatro áreas da Bacia de Santos, relacionadas aos excedentes da cessão onerosa.

Fonte: Gaúcha ZH

Mais notícias sobre PRAIA NOTÍCIAS
Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade
Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade Banner publicidade