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24/11/2020 | 05:53 | Polícia

Como a polícia conseguiu desvendar no litoral catarinense paradeiro de um dos criminosos mais procurados do RS

André da Silva Dutra, 46 anos, o Gordo Dé, foi preso no último domingo, quando deixava um supermercado em Bombinhas

Agentes do Deic viajaram até Santa Catarina, onde capturaram foragido e trouxeram de volta ao Estado - Polícia Civil / Divulgação

Quando deixava um supermercado neste domingo (22), em Bombinhas, no litoral de Santa Catarina, André da Silva Dutra, o Gordo Dé, 46 anos, viu-se cercado por 11 policiais. Apontado como líder de uma organização criminosa da zona norte de Porto Alegre, estava foragido desde 9 de junho de 2018. Naquela data, rompeu a tornozeleira eletrônica apenas 39 minutos após o equipamento ser instalado. A prisão pela equipe da Delegacia de Capturas do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) deu fim a dois anos e cinco meses de buscas.


– Como me acharam aqui? – indagou o foragido, incrédulo, ao ser localizado pelos policiais.

 

Com 11 mandados de prisão por homicídios e lavagem de dinheiro, além de antecedentes por crimes como roubos e tráfico de drogas, era considerado um dos criminosos mais procurados do Rio Grande do Sul.


– Esse é o último 01 (líder) de facção que foi recapturado. Mais um grande trabalho, um trabalho cirúrgico da Decap – afirmou o delegado Sander Cajal, diretor do Deic, durante coletiva à imprensa nesta segunda-feira (23).  

 

Para rastrear o paradeiro de Gordo Dé, os agentes do RS viajaram inúmeras vezes até Santa Catarina, onde sabiam que ele tinha familiares, estiveram no Paraná, no Mato Grosso e também no Paraguai. Ciudad del Este e Assunção foram, inclusive, as primeiras cidades visitadas pela polícia do RS atrás de informações do criminoso. Assim que Gordo Dé, a bordo de uma BMW, desapareceu dos radares da polícia em junho de 2018, os policiais passaram a buscar pelo paradeiro dele.

 

Como havia informação de que ele teria escapado para o Paraguai, seguiram para lá, onde passaram alguns dias buscando pistas com informantes. Conseguiram confirmar que ele teria passado por ali durante a fuga, mas nenhuma localidade exata foi descoberta. Os policiais regressaram para o RS e seguiram em busca de vestígios dele. Para manter a polícia longe, o foragido viajava constantemente de uma cidade para outra. Evitava usar telefone celular, acreditando que assim não seria rastreado. Deslocava-se especialmente no perímetro entre Florianópolis e Bombinhas, mas por vezes também viajava ao Rio Grande do Sul.

 

Para chegar até o paradeiro dele, os policiais passaram a monitorar pessoas próximas, inclusive outros integrantes da organização criminosa que mantinham contato com ele. Quando havia alguma suspeita de que ele poderia estar em alguma cidade, seguiam até Santa Catarina, onde vasculhavam município onde ele estaria escondido.  

 

– Quando chegávamos nessas cidades, percebíamos que um tempo depois ele acabava saindo dali, e ia para outra. Fazia um rodízio. E, assim foi, sucessivamente, até que dessa vez conseguimos nos antecipar. Por isso, a nossa pressa. Era preciso chegar até lá e encontrá-lo antes que se mudasse de novo – detalha o delegado Arthur Raldi, titular da Delegacia de Capturas.

 

A informação sobre o possível paradeiro dele foi obtida na noite da última sexta-feira (20). Na madrugada de sábado, 11 policiais do Deic rumaram em direção a Santa Catarina. Sabiam que ele não deveria permanecer muito tempo por lá, depois deveria se deslocar de volta para Florianópolis. Bombinhas apresentava uma vantagem em relação à capital catarinense. Com cerca de 35 quilômetros quadrados, o município conhecido pelas praias turísticas é o menor em território no Estado. Seria mais fácil rastreá-lo ali.  


Entre sábado e domingo, os policiais conseguiram descobrir que Gordo Dé estaria em uma casa no bairro Mariscal. Passaram a tentar encontrar o endereço exato do imóvel. Nas buscas, descobriram que ele estaria utilizando dois carros para se locomover: uma Tracker preta e uma Duster branca. Do segundo veículo, conseguiram obter a suposta placa. Na manhã de domingo, os policiais circulavam por Bombinhas, quando depararam com os veículos. Sem ter certeza se o foragido estava a bordo dele, passaram a perseguir o veículo – os agentes estavam em três viaturas discretas e não usavam uniformes.

 

Os veículos pararam no estacionamento de um supermercado e da Duster desembarcou um homem de camiseta, bermuda, chinelo e boné. Os policiais suspeitaram que fosse Gordo Dé, mas queriam ter certeza antes de abordá-lo. Se não fosse, poderia comprometer toda a ação. Agentes disfarçados ingressaram no mercado, logo atrás dele, e confirmaram que se tratava do criminoso. Monitoraram a movimentação dele dentro do comércio e aguardaram que ele retornasse na direção dos veículos. Havia receio de que pudesse haver algum confronto.   

 

– Assim que abordamos, ele pensou que fossem os contras (rivais de outras organizações criminosas) porque os policiais estavam à paisana – descreve o delegado.

 

Gordo Dé estava desarmado e não reagiu à prisão – ele estava acompanhado de familiares. Logo após a prisão, o até então foragido foi encaminhado de volta para o Rio Grande do Sul. A ação foi mantida em sigilo até a manhã desta segunda-feira. Havia receio de que a prisão pudesse gerar empreitadas dos comparsas ou mesmo dos rivais, para interceptar o transporte dele com fim de resgate ou execução. De volta ao Estado, Gordo Dé foi levado para a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), onde deve permanecer segregado.  

 

– Assim como eles fazem de tudo para se esconder, os nossos policiais também não medem esforços para encontrá-los. Nossos agentes são nossas principais ferramentas. É esse trabalho que acaba refletindo no sucesso na localização desses alvos. Às vezes, pode demorar meses, às vezes pode demorar anos, mas uma hora essa busca chega ao fim – comemora Raldi.  

 

O perfil 


Gordo Dé é apontado pela polícia como uma das principais lideranças criminosas do RS, por chefiar as ações de uma facção com atuação na zona norte de Porto Alegre, especialmente no Loteamento Timbaúva, no bairro Mario Quintana. O grupo, segundo as acusações, esteve envolvidos em execuções brutais, como decapitações. Atualmente, o foragido tinha 10 mandados de prisão preventiva, por homicídios e lavagem de dinheiro, e um por uma condenação de 40 anos de prisão.  


Em 2018, quando ele recebeu da Justiça o direito de ir para a prisão domiciliar especial, por conta da alegação de problemas de saúde, o risco de uma fuga deixou os órgãos da segurança em alerta. Até então, ele vinha sendo mantido no Presídio Central – o Estado havia tentado em 2017 transferir o preso para uma penitenciária federal, mas o pedido havia sido negado.  

 

Para cumprir prisão em casa, a Justiça determinou que Gordo Dé fosse monitorado por tornozeleira eletrônica. Ele deixou o Presídio Central a bordo de uma BMWX1. Foram necessários apenas 39 minutos entre a instalação do equipamento e o rompimento dele. O sinal de GPS sumiu assim que ele chegou ao município de Viamão, na Região Metropolitana. Desde então, ele era procurado pelas polícias do RS.  O advogado Gilberto de Jesus Linck, que defende o preso junto da advogada Aline do Amaral, informou que a defesa só deverá se manifestar após tomar conhecimento dos fatos. 

Fonte: GZH

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