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23/03/2022 | 05:53 | Política

Assembleia Legislativa aprova cassação do mandato do deputado Ruy Irigaray

Processo para a perda da cadeira pelo parlamentar recebeu 45 votos favoráveis e três contrários

Deputado nega irregularidades que levaram a sua cassação - Joel Vargas / Assembleia Legislativa,Divulgação

A Assembleia Legislativa gaúcha cassou o mandato do deputado estadual Ruy Irigaray (eleito pelo PSL, hoje no União Brasil) na tarde desta terça-feira (22) por quebra de decoro. Com 45 votos favoráveis e três contrários, Irigaray foi cassado em razão de denúncia de utilização de funcionários do seu gabinete, pagos com dinheiro público, para fins pessoais, como a realização de obras na casa de sua sogra.

A cassação será formalizada nesta quarta-feira (23), com a publicação da decisão no Diário Oficial da Assembleia. Para o assento vago no Legislativo, será chamado o deputado suplente Rodrigo Lorenzoni (União Brasil), atualmente secretário de Desenvolvimento Econômico de Porto Alegre.

Irigaray estava em primeiro mandato. Além da perda da cadeira no Legislativo, fica impedido de concorrer nos próximos oito anos.

Luciana Genro (PSOL), autora da representação contra Irigaray na Comissão de Ética, em fevereiro de 2021, foi a primeira parlamentar a subir à tribuna para pedir a cassação. Ela lembrou que o colegiado aprovou, no fim do ano passado, por unanimidade o andamento do processo contra Irigaray. 

— Não houve sequer divergência entre esquerda e direita dentro da Comissão de Ética da Assembleia, porque corrupção não tem ideologia, acontece na esquerda e na direita. E é preciso combater a corrupção independentemente de onde venha — disse Luciana.

Também na tribuna, Fábio Ostermann (Novo) lembrou que o processo contra Irigaray foi aprovado por unanimidade na Comissão de Constituição e Justiça, lamentando que os apoiadores de Irigaray acreditem que o parlamentar seja inocente.

— É um dia triste para a política gaúcha. Lamento pelas pessoas que estão aqui acreditando que estão defendendo a justiça e que se trata de um caso de perseguição política. O deputado está sendo cassado por conta de seus próprios atos. E nada mais justo que sofra a consequência desses atos — disse Ostermann.

Apoiadores do parlamentar cassado acompanharam a sessão nas galerias da Assembleia, com faixas e gritos de apoio. Irigaray usou a tribuna duas vezes rejeitando as denúncias e alegando ter sido alvo de uma armação promovida por desafetos políticos dentro de seu ex-partido.

Irigaray também nega que tenha utilizado a estrutura do gabinete para a obra particular. Segundo o deputado cassado, os seus assessores políticos efetivamente trabalharam na reforma, mas fora do horário de expediente e pagos com recursos próprios.

— Não tinha funcionário meu fazendo obra. E não era obra, era pintar parede, reparar um piso... Todas as pessoas que tiveram lá trabalhando receberam salário. Tinha dois assessores meus que trabalhavam (na reforma) fora do horário de expediente, e que receberam em conta — disse Irigaray, antes de ingressar no plenário.

Além do próprio Irigaray, votaram contra a cassação dois deputados: Rodrigo Maroni (PSC) e Vilmar Lourenço (PP). Os deputados Eric Lins (União Brasil), Airton Lima (Podemos), Luiz Fernando Mainardi (PT), Adolfo Brito (PP), Frederico Antunes (PP) se ausentaram da votação. Giuseppe Riego (Novo) não participou porque está em licença. Valdeci Oliveira (PT) não vota por ocupar a presidência da Assembleia.

As ausências contavam a favor de Irigaray, já que para aprovar a cassação eram necessários ao menos 28 votos dos 55 deputados estaduais, a chamada maioria absoluta. 

Hoje cassado, Irigaray foi o segundo mais votado em 2018

Empresário dos setores do agronegócio e de transportes, Irigaray ganhou popularidade em redes sociais com um discurso armamentista e antipetista. Nas eleições de 2018, conquistou mais de 102 mil votos, sendo o segundo mais votado para a Assembleia.

Irigaray era um dos deputados estaduais mais próximos da família Bolsonaro. Suas redes sociais e sua página oficial na Assembleia Legislativa são repletas de fotos com o grupo do presidente, especialmente com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), com quem compartilha a pauta armamentista. Foi de Irigaray a iniciativa para conceder a medalha do Mérito Farroupilha ao terceiro filho do presidente.

Irigaray também foi secretário de Estado do governo Eduardo Leite. Em março de 2019, ainda no início de seu mandato, ele se licenciou para assumir o comando da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico e Turismo, onde ficaria por quase um ano.

Em fevereiro de 2021, uma reportagem do jornalista Giovani Grizotti, da RBS TV, mostrou que Cristina Nerbas, uma ex-assessora de Irigaray, acusava o deputado de utilizar funcionários comissionados do gabinete na Assembleia Legislativa, pagos com dinheiro público, para fins pessoais. As denúncias foram endossadas por outra ex-assessora do parlamentar. Antes de chegar a plenário, o caso de Irigaray foi avaliado pela Corregedoria da Assembleia, pela Comissão de Ética e pela Comissão de Constituição e Justiça.

Sessão conturbada terá repercussão na Comissão de Ética

A sessão que selou o destino político de Irigaray também foi marcada por xingamentos e divergências entre os deputados Rodrigo Maroini (PSC) e Fábio Ostermann (Novo). A confusão começou quando Maroni argumentou, em defesa de Irigaray, que a prática de rachadinha é comum em parlamentos municipais e estaduais.  

— Quero dizer que a maior parte das Câmaras e Assembleias Legislativas tem rachadinha. Se investigar bem, vão passar em cima de denúncia. “Mas o Maroni está defendendo rachadinha?”. É uma constatação. Qualquer instituição pública tem corrupção — disse Maroni, seguindo adiante:

— Não acho que quem não tem imparcialidade pode julgar um deputado aqui. Vamos julgar? Que moral temos para julgar? 

Em sua fala, Ostermann reagiu às palavras e pediu que Maroni detalhasse os crimes sobre os quais tem conhecimento.

— Queria que o deputado que veio aqui antes informasse quais os gabinetes que ele tem conhecimento que praticam rachadinha. Eu seria a primeira pessoa a querer saber disso, Maroni. É importante que fique claro que temos responsabilidades perante a população — cobrou Ostermann.

Em uma tréplica, Maroni passou a ofender Ostermann, aos gritos:

— Para mim, tu é uma besta quadrada, vaidosa. Burro e vaidoso. Fábio, tu é a pessoa que eu tenho mais constrangimento de conviver aqui, sabe por que, velho? Tu te acha acima do bem e do mal. Tu é egocêntrico, vaidoso, intragável — disse Maroni, sob aplausos dos apoiadores de Irigaray.

Por conta das falas ofensivas, Ostermann prometeu apresentar denúncia contra Maroni na Comissão de Ética. 

— Passa totalmente do limite do razoável e é um despeito com o povo gaúcho. Essa conduta é incompatível com a posição de um deputado — disse Ostermann, por meio de sua assessoria.

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