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08/04/2022 | 05:13 | Política

Com nome oficial e concorrente paralelo, impasse no MDB para candidato ao governo do RS pode seguir até a convenção

Gabriel Souza foi homologado pelo diretório, mas enfrenta antagonismo interno de Cezar Schirmer

Deputado Gabriel Souza e vereador Cezar Schirmer Arte com fotos de Joel Vargas e Mateus Raugust, - PMPA / Divulgação

A homologação do deputado estadual Gabriel Souza como pré-candidato a governador pelo diretório regional não aplacou a divisão no MDB gaúcho, que ruma ao processo eleitoral distante da união que o caracterizou em outras eleições, mesmo naquela em que houve disputa interna. 

O próprio ato que confirmou a candidatura de Gabriel simbolizou a cisão: apesar da presença do ex-governador José Ivo Sartori, outros líderes expressivos, como os ex-governadores Pedro Simon e Germano Rigotto e o prefeito Sebastião Melo, se recusaram a participar.

Legitimado por Sartori, o deputado venceu a batalha com Alceu Moreira, seu antigo aliado, que desistiu poucos dias antes da escolha no diretório. Por outro lado, ganhou a concorrência do vereador Cezar Schirmer, que enviou carta ao partido apresentando-se como pré-candidato, embora sem disposição de disputar no diretório — na interpretação de Schirmer e do grupo que o cerca, a instância é ilegítima para indicar o concorrente ao Palácio Piratini.

No momento, o cenário interno ainda é de impasse, e o principal receio é de que se estenda até a convenção, o que tende a inviabilizar a formação de alianças com outros partidos.

Na semana passada, Gabriel iniciou uma série de viagens pelo interior do Estado para fortalecer a candidatura. Em paralelo, o presidente estadual do partido, Fábio Branco, trabalha para apaziguar os ânimos na ala descontente. No último sábado (2), Branco chegou a conversar pessoalmente com alguns deles, como o ex-prefeito José Fogaça e Melo.

Críticos da escolha pelo diretório, esses emedebistas da chamada velha guarda impediram a escolha do candidato em dezembro, quando Alceu deveria ser lançado sem concorrência. Mais tarde, trabalharam pelo adiamento da prévia entre Alceu e Gabriel, que seria disputada em 19 de fevereiro.

Além de contestar a forma de escolha, o grupo reclama de uma suposta interferência do ex-governador Eduardo Leite em favor de Gabriel na disputa.

Pé na estrada
Aos 38 anos, Gabriel Souza se prepara para ser o candidato mais jovem do MDB ao Piratini desde a redemocratização. Para fortalecer seu nome com os correligionários, começou na última semana uma incursão ao Interior, a fim de participar de eventos públicos e encontros partidários. Auxiliado por prefeitos, vereadores e pré-candidatos a deputado, já tem roteiros encaminhados até a metade de maio.

O deputado afirma que, nos contatos com a base partidária, não percebeu resistências ao seu nome:

— Até agora, não ouvi nenhuma palavra de discórdia. O partido está muito empolgado e quer ganhar a eleição.

Simpatizantes de Gabriel, no entanto, admitem que a investida de Schirmer atrapalha, sobretudo na busca de alianças para disputar o Piratini. Um deputado conta que, em conversas com colegas de outros partidos, a mesma pergunta aparece:

—Tá, mas e o Schirmer?

Para tentar dirimir essa dúvida, Branco, que é prefeito de Rio Grande, prepara uma série de agendas em Porto Alegre na próxima semana. Ele deve conversar com dirigentes de outros partidos para reafirmar que o candidato do MDB será Gabriel.

Inconformismo
Ex-prefeito de Santa Maria, ex-deputado estadual e federal e diversas vezes secretário, Cezar Schirmer, 70 anos, é um político admirado dentro e fora do MDB, sentimento que ficou provado em um encontro partidário em dezembro. Enquanto Schirmer estava isolado em um hotel esperando para depor no júri da Boate Kiss, foi aplaudido de pé por centenas de correligionários que lotaram o Teatro Dante Barone, na Assembleia Legislativa, em homenagem puxada por Sartori.

Schirmer não agiu por impulso ao comunicar o partido que estava entrando na briga pela candidatura ao Piratini. A decisão foi refletida junto de companheiros da velha guarda, com os quais compartilha a indignação de ver o candidato ser definido pelo diretório. Com insistência, repete que o partido "não pode tirar a decisão de 900 pessoas e passar para 70".

Para estar apto a concorrer, Schirmer deixou a Secretaria Municipal do Planejamento e reassumiu a cadeira de vereador de Porto Alegre, cargo para o qual foi eleito em 2020. A partir da próxima semana, também deve começar a viajar pelo Estado para encontrar partidários.

O vereador e seu grupo se agarram ao argumento de que o estatuto do partido não dá poder ao diretório para escolher o candidato, e está disposto a disputar contra Gabriel na convenção, que deve ocorrer entre julho e agosto. A interpretação é contestada tanto pelos apoiadores de Gabriel quanto pela assessoria jurídica do partido.

Embora não verbalize publicamente, Schirmer deixa nas entrelinhas que também enxerga interferência do Piratini na escolha interna do MDB:

—O MDB nacional começou a afundar quando quem passou a decidir sobre o futuro do partido foi Fernando Henrique (Cardoso, PSDB), depois Lula (PT) e Dilma (Rousseff, PT). Não podemos deixar isso acontecer aqui.

Schirmer rejeita peremptoriamente as insinuações de que esteja trabalhando para que o partido não tenha candidato, ou mesmo de que seu plano seja o de alavancar o nome para concorrer a deputado. Diz que tem ideias sobre o futuro do Estado e quer discuti-las.

Enquanto a discordância impera, o temor de que o MDB fique dançando com a vassoura na formação de alianças para a eleição estadual é crescente. Um ex-mandatário que mantém interlocução tanto com Schirmer quanto com Gabriel está certo de que, permanecendo o impasse até a convenção, o partido será obrigado a apresentar chapa pura para o Piratini e o Senado.

— E aí podemos nos preparar para uma derrota acachapante  —emenda.

Fonte: GZH

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