Eleito sob a desconfiança de que não tinha propostas,
sentimento reforçado por suas evasivas nos debates e entrevistas, o governador José Ivo Sartori chega ao centésimo dia à frente do Piratini com o freio de
mão puxado. Suas medidas mais significativas foram dois decretos para reduzir despesas.
A crise financeira, que trouxe consigo a ameaça de atraso de
salários, foi praticamente a única nota tocada. Somente oito projetos pouco expressivos foram enviados à Assembleia, a bandeira prioritária do governo não
foi apresentada e Sartori, entre silêncio e frases poucos esclarecedoras, segue enigmático.
Dois grupos se destacam na análise sobre os cem dias.
O primeiro, que inclui oposicionistas, sindicalistas e peemedebistas descontentes, entende que o governo ainda está perdido, sem saber o que fazer para driblar as dificuldades
impostas pela situação financeira deficitária.
O segundo, integrado por aliados e líderes empresariais, acredita que o período
inicial foi utilizado para um profundo diagnóstico e preparação de medidas de reforma fiscal. Os defensores dessa tese apontam, ainda, que o comportamento de Sartori,
agregado à caravana criada para espalhar pelo Estado os relatos sobre a falta de dinheiro, são parte de uma estratégia para obter apoio da população e
pressionar os deputados estaduais a aprovarem medidas amargas de ajuste de contas.
— É um governo que ainda não disse à sociedade a que veio.
Até agora, só se esgaçou a questão financeira, dizendo que não tem como pagar — avalia um prócer peemedebista.
Internamente, também é feita a avaliação de que o Piratini cometeu “barbeiragens políticas” que renderam polêmica e desgaste. Por
entenderem que as medidas de corte poderiam ser tomadas sem a necessidade de alarmismo, alguns aliados acreditam que Sartori criou uma armadilha para si ao assinar os dois decretos
determinando cortes no orçamento e prorrogação do pagamento de dívidas herdadas.
No calor dos contingenciamentos, pelo menos
três episódios contrapuseram a teoria e a prática e trouxeram constrangimento. O mais relevante foi o caso dos salários. Enquanto diminuía o policiamento
nas ruas pelo corte de horas extras, Sartori sancionou os reajustes aprovados em 2014 pela Assembleia para carreiras do topo de Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério
Público.
Com a péssima repercussão, ele e o vice-governador José Paulo Cairoli voltaram atrás e abriram mão da
remuneração majorada. As polêmicas foram potencializadas por terem ocorrido em momento de discurso de caos financeiro. Ficou o desgaste político.
Foram nomeados 910 professores
Entre os aliados, existe a crença de que Sartori traçou o planejamento e está
determinado a deixar uma situação financeira mais saudável como herança.
— Ele age estrategicamente. A crise existe, é
fato, mas ele está levando isso ao limite para criar o clima necessário à apresentação e à aprovação de propostas amargas. Quem tira
o governador para bobo está muito equivocado — assegura um deputado do PMDB.
Líder do governo na Assembleia, Alexandre Postal (PMDB)
ressalta a típica cautela de Sartori, reforça o discurso de dramaticidade das contas — segundo ele, nem os aliados do ex-governador Tarso Genro sabiam que o
cenário é tão desolador, com previsão de déficit de R$ 5,4 bilhões em 2015 —, mas garante a existência de rumo.
— Ainda não está concluído o que vai ser feito, mas o plano existe. Provavelmente não serão medidas das mais simpáticas. Simpático foi
o que o PT fez, criou um monte de cargos e deixou a situação caótica do jeito que está. Podem não gostar, mas ele vai colocar a primeira semente para
mudar a situação fiscal do Estado — diz Postal, que destaca, entre as ações do governo, a nomeação de 910 professores no início do ano
letivo, sendo 540 concursados.
As futuras propostas, focadas no aumento de receita, serão enviadas à Assembleia a partir de maio. Postal já
teria avisado que a elevação da alíquota de ICMS é a única medida sem chance de ser aprovada no parlamento. Ele argumenta que a renegociação
da dívida com a União, que o governo federal tenta empurrar para 2016, definirá o grau de rigidez das medidas.
Se sair o acordo, o Estado irá
recuperar sua capacidade de contrair empréstimos, o que tornará a situação menos drástica. Neste ponto, Postal rebate a crítica de que Sartori
não estaria se articulando e pressionando suficientemente a presidente Dilma Rousseff:
— A maioria gostaria que Sartori fosse no gabinete da Dilma
para tirar uma foto. Mas não precisa falar as coisas publicamente. Tu achas que ele foi na colheita do arroz do MST só para ser vaiado (militantes do movimento, em maioria
simpatizantes do PT, vaiaram Sartori na cerimônia)? Não era público para ele, estava tudo montado, mas o Sartori foi porque conversou com Dilma. Eles se falam
bastante.
No núcleo do Piratini, cercado pelos secretários Carlos Burigo (Geral de Governo), Giovani Feltes (Fazenda) e Márcio Biolchi (Casa
Civil), as relações são consideradas boas. Os atritos ocorrem quando Sartori julga que alguém falou demais à imprensa. Feltes tem sido o mais destacado,
com experiência de três mandatos como prefeito e boa oratória, é o que mais costuma confrontar o governador com opiniões e apontamentos.
Por vezes, chega a assumir indiretamente as funções de chefe da Casa Civil, no vácuo da atuação tímida de Biolchi. Burigo, o mais
próximo de Sartori, é fiel ao estilo do governador: quanto menos for notado, melhor.
Mesmo antes de assumir o governo, Sartori já se mostrava
evasivo em relação aos seus projetos para o Estado.