02/12/2025 | 07:51 | Polícia
Mandados são cumpridos nesta terça-feira nos Estados de Mato Grosso, Goiás e Rio de Janeiro
A cerca de 2 mil quilômetros de Porto Alegre, em Rondonópolis (MT), um detento de 35 anos é suspeito de ser o responsável por enganar e lesar familiares de pacientes internados no Rio Grande do Sul. É o que aponta uma investigação do Departamento Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos.
Nesta terça-feira (2), a Polícia Civil gaúcha realiza em três Estados a Operação Cura Ficta (que remete à falsa cura prometida pelos criminosos). Além de Mato Grosso, os mandados são cumpridos em Goiás e no Rio de Janeiro. São nove ordens de prisão preventiva e 13 de busca e apreensão contra o grupo criminoso especializado no chamado golpe do falso médico. Até o momento, sete pessoas foram presas na ofensiva.
A investigação da Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos teve início após o registro de casos em Porto Alegre e Canoas, na Região Metropolitana. Os golpistas entravam em contato com familiares de pacientes internados em unidades de terapia intensiva (UTIs) de hospitais e alegavam que era necessário realizar novos procedimentos. Para isso, exigiam o pagamento de valores. Em média, segundo a polícia, os estelionatários cobravam entre R$ 5 mil e R$ 15 mil das vítimas.
O contato era feito por telefone e os criminosos se passavam por médicos ou diretores clínicos, utilizando nomes fictícios e fotos retiradas da internet. Segundo a investigação, para convencer as vítimas, eles alegavam que o paciente tinha sofrido um agravamento no quadro de saúde de doenças como leucemia e infecções bacterianas graves. Os pagamentos eram realizados por meio de Pix para supostamente custear exames ou medicamentos que não teriam cobertura pelo plano de saúde.
Segundo o delegado Eibert Moreira Neto, diretor do departamento, a polícia ainda busca entender como os golpistas tinham acesso às informações sobre os pacientes.
— Pretendemos esclarecer com o cumprimento dos mandados de hoje. Com certeza, eles possuem acesso a um banco de dados dos hospitais ou do plano de saúde — afirma o delegado.
Durante a investigação, foram identificados 12 suspeitos de serem responsáveis por essa fraude, que causou prejuízos para ao menos seis pessoas. A polícia suspeita que existam mais vítimas. A apuração indica que há envolvimento do Comando Vermelho — organização criminosa do Rio de Janeiro.
— Eles se valiam de uma situação de vulnerabilidade de pessoas hospitalizadas e seus familiares. Esses valores obtidos com a fraude eram revertidos em prol de uma facção atuante no Estado do Mato Grosso. É uma grande organização criminosa do Rio de Janeiro, com atuação em todo o território nacional. A gente percebe que há uma migração e membros de organizações criminosas têm se valido desses golpes também para monetizar e capitalizar a atuação desses grupos — detalha o delegado.
Num dos casos investigados, os golpistas exigiram R$ 3,8 mil de familiares de um paciente para supostamente realizar uma série de exames, incluindo uma biópsia. Em áudio com um dos filhos do paciente, o golpista alega que o plano de saúde não permite a realização dos exames no mesmo dia.
— Nós vamos precisar submetê-lo a sete baterias de exames de sangue computadorizados e uma biópsia da medula óssea para identificar porque a medula óssea começou a produzir células cancerígenas — afirma o golpista.
Na conversa, o estelionatário segue tentando demonstrar preocupação com a saúde do paciente.
— Só que pelo plano dele, a gente não conseguiu autorização para fazer hoje e isso seria um problema para ele. Como a gente não sabe a porcentagem que se encontra essa operação, provavelmente com prazo de sete dias, a gente não teria êxito e ele já seria portador de um câncer no sangue — diz.
O golpista alega na sequência ser possível realizar o procedimento de forma particular e que, se família fizer o pagamento, posteriormente poderá ser ressarcida pelo plano de saúde:
— Eles reembolsam 100% do valor gasto pela família, através de documentações geradas aqui no hospital... Preciso saber se a família autoriza, se tem condições de arcar com essa despesa, ou se a gente deve aguardar esse prazo de sete dias.
O suspeito de ser um dos responsáveis pelo esquema é um preso da Penitenciária Major Eldo de Sá Corrêa, em Rondonópolis. Segundo a polícia, mesmo encarcerado, ele coordenava as chamadas e a logística do golpe. No interior da cela que ele ocupa na cadeia, durante investigações, foram apreendidos cadernos com anotações de roteiros do golpe (scripts), dados bancários e números de telefone.
Uma mulher, moradora de Rondonópolis e companheira de um dos envolvidos, atuava como braço direito do comando prisional, operando contas bancárias, gerenciando o fluxo financeiro e utilizando tornozeleira eletrônica, o que denota sua reincidência criminal. Outro alvo, também de Rondonópolis, chamou a atenção dos investigadores por possuir 121 chaves Pix cadastradas em seu CPF, o que indica a utilização profissional de contas para pulverizar o dinheiro ilícito.
Além da base no Mato Grosso, a organização criminosa tinha ramificações. Segundo a polícia, em Guaratiba, no Rio de Janeiro, foram identificados dois suspeitos de serem os responsáveis por fornecer e movimentar contas bancárias utilizadas para receber os valores extorquidos das vítimas, agindo em sincronia com os contatos telefônicos feitos de dentro do presídio.