Mais da metade (53%) dos agricultores familiares ligados à Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (Fetraf-RS) não pretende investir na propriedade nos próximos anos. O dado, revelado por uma pesquisa inédita que entrevistou 662 produtores em 34 municípios gaúchos, servirá como base para uma mudança de estratégia da entidade, que pretende estimular um modelo de produção com menor dependência de insumos e maior rentabilidade.
O diagnóstico integra o livro Agricultura Familiar em Transformação, que será lançado na próxima quarta-feira (22), durante o Congresso Mundial de Sociologia Rural, na UFRGS, em Porto Alegre. A coluna teve acesso à pesquisa com exclusividade.
A publicação reúne pesquisadores de cinco universidades e sintetiza um trabalho iniciado em 2021, com aplicação dos questionários em 2024.
Para Douglas Cenci, coordenador-geral da Fetraf-RS, que, hoje, possui 10 mil associados ativos, os números indicam perda de perspectiva no campo:
— O agricultor continua associado, utiliza os serviços do sindicato, mas muitas vezes já não quer discutir o futuro da propriedade. A pesquisa confirmou uma percepção que vínhamos tendo nas visitas às comunidades.
Outro dado que chamou a atenção foi a percepção dos próprios agricultores sobre os principais problemas enfrentados atualmente. O custo elevado dos insumos apareceu no topo da lista, citado por 65,7% dos entrevistados, seguido pelos eventos climáticos e pelos preços de venda da produção.
— A mudança climática agravou uma fragilidade que já existia. O modelo produtivo atual deixa margens muito pequenas. Qualquer evento climático elimina o lucro e leva ao endividamento — analisa Cenci.
Próximo passo
A partir dos resultados da pesquisa, a Fetraf-RS pretende concentrar esforços na implantação de um novo modelo produtivo voltado à agricultura familiar. A proposta passa por ampliar a assistência técnica independente da venda de insumos, incentivar práticas de manejo e aproximar os agricultores de tecnologias desenvolvidas por instituições de pesquisa, mas pouco difundidas no campo.
A iniciativa será conduzida pelo recém-criado Instituto de Cooperação da Agricultura Familiar, responsável por cursos, capacitações e acompanhamento técnico das propriedades.
— Há tecnologias de manejo capazes de reduzir cerca de 30% dos custos de produção. Isso significa ampliar a margem de renda do agricultor e dar condições para enfrentar anos com perdas climáticas — acrescenta Cenci.
O dirigente também defende um modelo que considere aspectos sociais e de saúde mental no meio rural. Segundo ele, o produtivismo tem alterado a forma de viver das famílias.
— O agricultor mora e trabalha no mesmo lugar. Muitas vezes vive trabalhando e esquece de viver. Temos percebido aumento dos problemas de saúde, inclusive pessoas que recorrem a medicamentos para conseguir dormir — relata o coordenador geral da Fetraf-RS.
Além dos 500 exemplares impressos, o livro será disponibilizado gratuitamente em formato digital e também será apresentado em universidades nos próximos meses.
Os dados
- Tamanho das propriedades: 68% das famílias pesquisadas manejam áreas de até 20 hectares.
- Mão de obra: Em 47% das propriedades, apenas duas pessoas trabalham em tempo integral, enquanto 16,8% contam com somente uma pessoa.
- Tipo de cultura: A produção de grãos está presente em 77,2% das famílias pesquisadas e representa a principal fonte de renda agrícola para 82,5% das que desenvolvem essa atividade.
- Principais preocupações: 65,7% mencionam o elevado custo dos insumos, 59,5% a vulnerabilidade aos eventos climáticos extremos e 57,6% os baixos preços recebidos pelos produtos.
- Tipo de vínculo: As cooperativas são utilizadas por 55,9% das famílias, e as indústrias por 53,8%. As vendas diretamente na propriedade alcançam 19%, as feiras locais 5,6%, os mercados territoriais 4,5% e os mercados institucionais, como PAA e PNAE, aproximadamente 3%.
- Além disso, 33% dos municípios pesquisados não possuem ponto de venda específico para produtos da agricultura familiar.
- Assistência técnica: Embora 70% das famílias afirmem contar com alguma orientação técnica, as cooperativas respondem por aproximadamente 40% dessa assistência e as lojas agropecuárias por 34%, enquanto apenas cerca de 16% mencionam a Emater.
- Perspectivas de futuro: 53,8% pretendem manter a propriedade nas condições atuais, enquanto 45,8% planejam investir em melhorias, indicando disposição para fortalecer a produção e garantir sua continuidade. Em contrapartida, 16,6% consideram arrendar a propriedade para outros produtores e 5,3% avaliam vender a terra ou abandonar a atividade.
Fonte: Fetraf-RS

























































