Os brasileiros voltam às urnas neste domingo (25) para escolher entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quem governará o país pelos próximos quatro anos. Uma escolha entre dois candidatos que nas últimas semanas travaram nas redes sociais, nos programas eleitorais, nos debates e nos palanques uma disputa de visões antagônicas sobre Brasil e, sobretudo, uma campanha de desconstrução do adversário.
Munição não falta. Ao longo do ano, proliferaram denúncias variadas envolvendo os dois campos em disputa. Flávio é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo financiamento do filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (hoje preso por tentativa de golpe de Estado). Parte do dinheiro para custear a obra, ainda não finalizada, veio do banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por fraudes financeiras e preso preventivamente.
Flávio também tem relações estreitas com um investigado pela Polícia Federal (PF) por desvios bilionários no INSS, o advogado Willer Tomaz, que lhe emprestou um avião para viajar dos EUA ao Brasil e dentro da Europa. Os dois partilharam um mesmo endereço comercial, festas e indicações para negócios.
Já Lula é acossado pelos opositores porque o filho mais velho dele, Fábio Luís Lula da Silva (o Lulinha), é investigado em três inquéritos no STF por, supostamente, traficar influência para lobistas interessados em firmar contratos com o governo federal. Os negócios acabaram não sendo firmados, mas as tentativas teriam ocorrido.
O atual presidente também colhe impactos negativos pelo entrosamento demonstrado com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após a tentativa de golpe de Estado por militantes bolsonaristas em janeiro de 2023. A PF descobriu que Moraes mantém relações estreitas com o bilionário Daniel Vorcaro, que inclusive contratou a esposa de Moraes como advogada do Banco Master, em uma negociação de R$ 131 milhões. As propagandas políticas bolsonaristas colocam o rosto de Moraes e de Lula sobrepostos, insinuando ligação dos dois com o banqueiro corrupto.
Histórico dos candidatos
Lula, 80 anos, tenta pela quarta vez comandar os destinos do país — as outras eleições dele foram em 2002, 2006 e 2022. É uma história ligada umbilicalmente ao Partido dos Trabalhadores, do qual foi um dos fundadores, na década de 1980. Nordestino que migrou para São Paulo, metalúrgico, ele se notabilizou por liderar greves operárias no final dos anos 1970, ainda durante o regime militar. Chegou a ser preso na época. Foi deputado federal e sofreu três derrotas na disputa para a Presidência da República (em 1989, 1994, 1998), antes de chegar ao cargo pela primeira vez, em 2002.
Lula busca se reeleger após uma desgastante campanha contra os maiores adversários que a esquerda já teve em tempos democráticos no Brasil: a família Bolsonaro, herdeiros da maioria dos votos da direita e admiradores confessos da ditadura militar que vigorou no país entre 1964 e 1985. Pesa contra o atual presidente o fato de o partido dele, o PT, ter ocupado a Presidência da República em 17 dos 24 últimos anos.
Flávio, 45 anos, é senador e carrega um sobrenome que se confunde com a trajetória ascendente do conservadorismo brasileiro — ou extrema direita, como preferem designar seus adversários. Tenta se eleger ao cargo mais disputado do país embalado no slogan Deus, Pátria e Família que caracterizou o governo do seu pai, o ex-militar Jair Bolsonaro, eleito presidente da República em 2018 e hoje em prisão domiciliar. Nas propagandas, Flávio parece uma versão mais sóbria e menos polêmica do pai.
Momento político
Caso vença, Flávio tende a governar com mais tranquilidade do que Lula, que teria minoria no Congresso. O campo de direita terá presença maior na Câmara dos Deputados (121 parlamentares do PL) e no Senado (28 do partido do filho de Jair Bolsonaro). Contará também com apoio de pelo menos 12 governadores eleitos no primeiro turno, número que pode chegar a 20.
Uma vitória ainda abrirá possibilidade para que o bolsonarismo indique ministros no Supremo Tribunal Federal (STF) mais simpáticos à sua linha ideológica. O certo é que, se alinhar o discurso à prática, Flávio vai tentar guinar o Brasil numa direção mais conservadora, mais capitalista, com menos ingerência do Estado.
Em declarações nesta semana, o cientista social Clifford Young, um veterano das pesquisas eleitorais e um dos coordenadores do instituto de pesquisa Ipsos, ressaltou que o mundo vive uma onda de pessimismo estrutural, em que o eleitor desacredita no sistema, como se o contrato social estivesse quebrado. "É um movimento anti-governante, tendo crime e corrupção como temas principais. E o Brasil está incluído nessa tendência", analisa ele.
Mas o especialista faz uma ressalva: o governante tem o poder dos decretos e nomeações, o que costuma ajudar na hora da eleição. Lula, por exemplo, efetivou medidas populares, como o reajuste do piso do Bolsa Família e a antecipação do pagamento do benefício, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, a reformulação do programa de renegociação de dívidas (Desenrola) e o início dos trâmites para a distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS.
Tudo isso se soma ao despertar dos apoiadores do presidente, que após anos de inércia e do susto com a vitória parcial de Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições, tomaram as ruas das principais metrópoles brasileiras nas vésperas desse desfecho do pleito presidencial.
Os bolsonaristas também fizeram manifestações, mas os especialistas acreditam que o candidato da direita será beneficiado pelo voto silencioso (também chamado voto envergonhado): eleitores pouco estridentes, mas que escondem sua preferência e agem apenas nas urnas. Foi assim na primeira rodada das eleições, quando as pesquisas apontavam ligeiro favoritismo de Lula e o vitorioso foi Flávio Bolsonaro.
Em recente análise, o diretor do instituto de pesquisas Quaest, Felipe Nunes, afirmou que uma vitória do petista só acontecerá se a campanha conseguir reduzir a alienação eleitoral, assim como fez Dilma Rousseff em 2014. O termo se refere à soma do número de abstenções e dos votos nulos e brancos. No primeiro turno das eleições 2026, foram mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e quase 6 milhões que não escolheram nenhum dos candidatos disponíveis.
Disputa acirrada
As principais enquetes pré-eleitorais mostram agora que os dois candidatos chegam virtualmente empatados ao dia decisivo do pleito, o que reforça a pancadaria verbal mútua nas redes e nos debates televisivos. No domingo passado, na rede de TV Band, Flávio se postou atrás de Lula, fazendo caretas a cada manifestação do adversário (algo que foi vetado debate da Rede Globo, na sexta-feira). O presidente, por sua vez, tripudiou ao dizer que gostaria de contar com o voto de todos os presidiários do país — inclusive com o do pai de Flávio, que está preso.
Lula se propôs a abrir os sigilos bancários, telefônicos e fiscais seu e da sua família e desafiou Flávio a fazer o mesmo. Em resposta, o candidato de oposição afirmou que toparia, desde que o atual presidente abrisse os sigilos de seus familiares, integrantes do gabinete, dos gastos no cartão corporativo e dos registros de visitas ao Planalto. Lula aceitou e retrucou com outra exigência: a quebra do sigilo da Alcazar Holdings, empresa ligada ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio e investigado pela PF no caso de descontos indevidos no INSS. Tudo isso virou meme na internet ao longo da derradeira semana de campanha.
A situação faz o filósofo e cientista político do Insper Fernando Schüler definir essa como a eleição presidencial mais acirrada que testemunhou:
— As campanhas pautaram as redes sociais de uma forma tóxica, com extremos de polarização afetiva. Os cortes nos vídeos são feitos para aumentar a rejeição do adversário, não para propor soluções para problemas que afetam o país. É o pleito da incomunicabilidade.
Opinião semelhante tem o cientista político Rodrigo Gonzalez, professor de pós-graduação do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
— Esta é a eleição dos vazamentos seletivos, com muito pouco espaço para ideias. O voto pode ser decidido por percepções subjetivas de quem é mais culpado de acusações sem prova e sem investigação concluída — avalia.
Gaudêncio Torquato, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), escritor, jornalista e consultor de política, é um arguto observador de campanhas presidenciais desde os anos 1970, e considera essa a campanha mais agressiva a que assistiu.
— A política parece ter trocado a mesa de trabalho pelo picadeiro. Em lugar de projetos, exibe provocações. Em lugar de argumentos, distribui apelidos. Os protagonistas disputam o aplauso de suas plateias, enquanto as ideias ficam guardadas num baú esquecido. O adversário deve sair ferido. O cidadão sai sem resposta — resume.
E essa troca constante de insinuações sobre corrupção comove o eleitor? Todos os consultados pela reportagem acreditam que não.
— As acusações pesam apenas para apoiadores. Cada um crê no seu candidato e acha que o outro é culpado. Dificilmente muda voto, pois em geral as acusações não são novas. Pode afetar a abstenção, pelo efeito de rejeição geral, a ideia de que é tudo igual. Nesse sentido, não é bom para o Lula — pondera Gonzalez, da UFRGS.
Fernando Schüler também acha que corrupção não emociona muito o eleitor.
— O debate pouco muda, porque 90% ou mais dos eleitores já decidiu em quem votar. Eles fazem uma leitura enviesada do tema: selecionam sua indignação. Ajudados pelos candidatos, que tentam impedir que o adversário apresente sua agenda, procuram criar um descontrole capaz de gerar bons cortes nas redes sociais — sintetiza.
Gaudêncio Torquato acrescenta que o debate sobre corrupção não mexe tanto com o eleitor porque a maioria já tem uma opinião formada.
— O que importa, mesmo, são dois assuntos: o dinheiro no bolso e a segurança pública. O Lula fez muitos programas, como o Bolsa Família, o Pé-de-Meia, o Desenrola, que são importantes num país onde 80% da população está endividada. Mas há uma indignação com o sistema, o status quo. E isso pode se voltar contra quem está no poder, ele. Ao mesmo tempo, muita gente receia a família Bolsonaro e uma possível volta do autoritarismo. São desafios que tornam difícil um prognóstico — conclui o professor.























































