Relatório da primeira investigação da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal (PF), aponta que o presidente da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), Carlos Roberto Ferreira Lopes, teve um encontro em 2023 com o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, no qual teria sido discutida a escolha do comando do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A apuração revelou um esquema nacional descontos indevidos aplicados sobre aposentadorias e pensões pagas pelo INSS. Segundo o g1, a PF entregou o material ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso, na última sexta-feira (10). O próximo passo é o envio das conclusões à Procuradoria-Geral da República (PGR), órgão que vai decidir se oferece denúncia formal, pede o arquivamento da apuração ou solicita a produção de novas provas.
Procurado pela reportagem, Rodrigo Pacheco negou qualquer envolvimento no episódio relatado pela PF. Leia a nota na íntegra abaixo.
Com um dos inquéritos concluídos, a PF indiciou o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e mais 47 pessoas por suspeita de corrupção e outros crimes. Entre eles, o próprio Carlos Lopes, apontado pelos investigadores como integrante de organização criminosa, além de responder por lavagem de dinheiro de forma majorada e reiterada e por corrupção ativa majorada. Ele é considerado foragido desde 2025.
Também foram indiciados o ex-procurador-geral da autarquia, Virgílio Antônio Ribeiro Filho e o ex-diretor de benefícios André Fidelis, sob suspeita de corrupção e de outros crimes ligados aos descontos indevidos. A defesa de Stefanutto informou que ainda não teve acesso ao relatório de indiciamento. Os advogados dos demais indiciados não se manifestaram até o momento.
Segundo a investigação, foi o deputado federal Euclydes Pettersen quem viabilizou o encontro entre Lopes e Pacheco, realizado em 1º de fevereiro de 2023.
"As mensagens provam que, no dia da posse dos parlamentares (01/02/2023), possivelmente utilizando os acessos proporcionados por EUCLYDES, CARLOS ROBERTO se reuniu com o Senador RODRIGO PACHECO para tratar da nomeação do Presidente do INSS. Essa nomeação de cargos-chave (Presidente, Diretor de Benefícios e Procurador-Geral) era fundamental para garantir a boa fluidez do esquema e a blindagem contra as auditorias, permitindo que a fraude em massa (Tópico 2) continuasse a gerar a receita ilícita", diz parte do texto.
Pettersen, então deputado do partido Republicanos por Minas Gerais que atualmente não está em exercício, também foi indiciado na operação. Ele havia sido alvo de busca e apreensão em novembro de 2025, sob suspeita de receber propina em troca de atuar em favor dos interesses dos responsáveis pelas fraudes.
Ainda de acordo com a apuração policial, na troca de mensagens com Pettersen, Lopes comentou a formação das mesas diretoras da Câmara e do Senado, mencionou que "Pacheco" havia sido eleito e afirmou que iria "encontrar com eles" em uma reunião destinada a definir quem assumiria a presidência do INSS.
A PF destaca ainda a sequência de nomeações no órgão previdenciário logo após esses episódios: "Verifica-se que, no dia seguinte à posse de EUCLYDES e "Pacheco" (02/02/2023), GLAUCO ANDRÉ FONSECA WAMBURG foi nomeado Presidente do INSS, cargo que ocupou até 11/07/2023, quando foi substituído por ALESSANDRO STEFANUTTO".
O que diz Pacheco
Não conheço e nunca estive com o senhor Carlos Lopes e a senhora Bruna Braz. Nunca me reuni para tratar de indicação da pessoa de Glauco André Fonseca Wamburg que, aliás, eu sequer sabia que havia sido presidente do INSS. Também nunca fiz indicação alguma para o INSS e não conheço seus diretores e ex-diretores. Parece se estar diante de uma confusão de informações que misturou a notícia da minha eleição para presidente do Senado, um fato nacional mencionado por um cidadão de Minas Gerais, com outros assuntos que não me dizem respeito. A referência a ir se "encontrar com eles" por certo não me inclui.
Operação Sem Desconto
As apurações sobre os desvios no INSS começaram em abril do ano passado, quando a PF passou a investigar um esquema de descontos indevidos nos benefícios que teria causado um prejuízo estimado em R$ 6 bilhões.
A conclusão do primeiro relatório final da operação caracterizou a Conafer como uma organização criminosa, com divisão hierárquica e diversos núcleos. Por isso, a PF indiciou Lopes por corrupção e organização criminosa, entre outros crimes, além de outras pessoas ligadas à Conafer. A defesa dele não se manifestou. Segundo a corporação, Stefanutto se omitiu na fiscalização das entidades associativas em troca de propina.
O relatório traz o seguinte trecho: "Em troca de sua omissão fiscalizatória deliberada recebeu propinas mensais recorrentes que alcançaram o patamar de R$ 250.000,00 mensais". Ele foi indiciado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, e está preso preventivamente desde o fim do ano passado, assim como Virgílio Antônio Ribeiro e Fidelis.
Os repasses de propina a Stefanutto teriam sido feitos via empresas de fachada, entre elas uma pizzaria. A PF também encontrou planilhas de pagamentos de propina da Conafer, cujas transferências bancárias correspondiam aos valores registrados nos documentos: Virgílio recebeu ao menos R$ 6,5 milhões, e Fidelis, R$ 3,4 milhões.



























































