Com o avanço das vendas de veículos eletrificados zero-quilômetro, o mercado de seminovos e usados também cresce. No acumulado do ano até setembro, essa categoria, que reúne veículos elétricos e híbridos, representa 1,62% das vendas dos seminovos e usados em todo o país.
Embora ainda seja uma parcela pequena do mercado, a participação da categoria está aumentando. No mesmo período do ano passado, essa fatia era de menos de 1%, segundo dados da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto). Ou seja, em um pequeno espaço de tempo, esta participação chega perto de dobrar.
De janeiro a setembro, foram vendidos 168,8 mil automóveis e comerciais leves seminovos e usados eletrificados no país, alta de 75,9% em relação ao mesmo período do ano passado. Nos mesmos nove meses, as vendas gerais de veículos usados cresceram 5,4%.
A Fenauto não tem recorte por Estados, mas a Associação dos Revendedores de Veículos Automotores do Estado do Rio Grande do Sul (Agenciauto/Fenauto-RS) avalia que a tendência se repete no Estado, onde os eletrificados vêm ampliando sua participação nas vendas.
— O movimento já é perceptível no Rio Grande do Sul, embora ainda esteja em estágio inicial. A oferta de seminovos está crescendo à medida que aumenta a frota de zero-quilômetros eletrificados. Na nossa operação, os eletrificados já representam aproximadamente 5% a 7% das vendas, o que mostra que existe demanda, mesmo com a disponibilidade ainda limitada de usados — relata o presidente da Agenciauto/Fenauto-RS, Rodrigo Dotto.
Os dados mais recentes do Sincodiv-RS/Fenabrave, entidade que representa concessionárias e distribuidoras de veículos, mostram que os eletrificados já respondem por 25% das vendas de automóveis e comerciais leves novos no Estado.
Vagner de Oliveira, 45 anos, encontrou nos seminovos uma oportunidade de comprar um veículo elétrico. O empresário, que mora em São Leopoldo, no Vale do Sinos, e a esposa adquiriram em uma revenda de confiança um BYD Dolphin Mini 2026, com 5 mil quilômetros, para substituir uma BMW X1, de 2017. A decisão foi motivada pela intensa rotina de deslocamentos da família e pela busca de melhor custo-benefício, além de outras vantagens, como isenção do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA):
— Como nós andamos bastante com esse veículo, a minha esposa usa muito para ir para universidade, escola da criança e tudo mais, optamos pelo custo-benefício do veículo e pelas garantias. Tanto na questão do combustível como também do IPVA. E ele tá suprindo nós bastante referente a isso.
Oliveira afirma que também percebeu o aumento da circulação de carros elétricos em uma de suas empresas, uma oficina de reparação automotiva.
O presidente da Agenciauto/Fenauto-RS, Rodrigo Dotto, avalia que os eletrificados deixaram de ser uma tendência pro futuro e passaram a fazer parte do mercado. Hoje, quase um quarto dos veículos leves novos vendidos no Brasil pertence a essa categoria. Com isso, a oferta desses carros no mercado de seminovos e usados tende a crescer.
— E aí aparece uma oportunidade muito interessante para o usado. Um veículo elétrico ou híbrido que era caro quando zero-quilômetro pode chegar ao segundo proprietário com uma relação custo-benefício muito melhor. Para muita gente, o seminovo pode ser justamente a porta de entrada para essa tecnologia — complementa o dirigente.
O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em mercado automotivo Antônio Jorge Martins avalia que o avanço global da eletrificação e a busca por preços mais acessíveis devem consolidar o segmento no longo prazo, o que ajuda a explicar o crescimento das vendas no Brasil. Esse processo também beneficia o mercado de seminovos, com maior oferta de marcas, modelos e tecnologias.
— Existe uma tendência natural de venda maior de veículos elétricos e híbridos daqui para frente. Já se manifesta em nível de mundo e você vê que em nível de Brasil, onde cada vez tem uma parcela maior de veículos importados — destaca Martins.
Depreciação
Mesmo com expansão nas vendas, o mercado de eletrificados seminovos e usados ainda enfrenta certa resistência de parte do público. Entre as principais dúvidas dos consumidores estão a vida útil da bateria e os custos de manutenção. A desvalorização também pesa na decisão de compra.
Dados do Índice Webmotors, que acompanha a variação dos preços anunciados na plataforma, apontam que os elétricos usados apresentaram depreciação de 11,95% em 2025 ante o ano anterior. Já os híbridos usados registraram desvalorização de 9,02%, enquanto os modelos com motor a combustão tiveram resultado melhor, com queda de 3,94% no período.
O professor da FGV Antônio Jorge Martins atribui a maior desvalorização dos elétricos ao custo elevado e à rápida evolução tecnológica das baterias. A infraestrutura de recarga ainda insuficiente também limita a demanda por modelos 100% elétricos. Além disso, a entrada contínua de novas marcas e lançamentos pressiona os preços:
— Enquanto tiver novos ofertantes, você há de ter novos produtos, no caso, novos veículos sendo lançados. E isso faz com que naturalmente haja uma tendência de maior depreciação.
O presidente da Agenciauto/Fenauto-RS ressalta que a desvalorização não significa necessariamente que o veículo seja ruim. Pode ser um movimento de mercado que envolve outros fatores. Isso pode abrir oportunidades para clientes que querem experimentar esse tipo de veículo:
— Por outro lado, essa maior desvalorização pode representar uma excelente oportunidade para quem compra o carro no mercado de usados. Parte importante da perda de valor já aconteceu com o primeiro proprietário. Então, dependendo do modelo e do preço de compra, um elétrico seminovo pode oferecer muita tecnologia por um valor bastante competitivo.
Categorias com maior depreciação
- O presidente da Agenciauto/Fenauto afirma que a desvalorização é maior nos elétricos de maior valor e nos que sofreram redução significativa de preço no zero-quilômetro
- Isso ocorre porque lançamentos com mais tecnologia e preços competitivos podem reduzir rapidamente o valor dos modelos anteriores
- Já nos híbridos, a perda é menor e mais controlada, principalmente em marcas com maior confiança e histórico, como Toyota e Lexus
No entanto, Dotto reconhece que a maior desvalorização dos eletrificados ainda é um dos principais entraves à expansão das vendas do segmento, principalmente para os 100% elétricos, porque aumenta o risco para quem compra esses veículos para revenda e gera insegurança quanto ao valor de negociação futuro. Mesmo assim, o dirigente afirma que esse elemento não vai impedir o crescimento do ramo:
— Para a revenda, o desafio agora não é decidir se vai trabalhar com esse produto, mas aprender a comprar bem, precificar corretamente e entender a liquidez de cada tecnologia.























































