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21/11/2020 | 07:02 | Política

Homens brancos somam 90% dos novos prefeitos no RS

Presença de negros nas prefeituras é 12 vezes menor do que participação na população do Estado

Perfil dos eleitos para prefeituras mudou pouco em quatro anos - Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

A onda de diversidade que atingiu a Câmara Municipal de Porto Alegre e elevou a representação de negros e mulheres a um recorde histórico nestas eleições não se repetiu nas prefeituras gaúchas. O cruzamento dos nomes dos eleitos em 15 de novembro com o banco de dados de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revela que 90% dos futuros prefeitos serão homens brancos, e, em sua maior parte, têm entre 51 e 60 anos.  
No ano que vem, nenhuma mulher negra tomará posse como gestora de um município do Rio Grande do Sul. Para especialistas, a falta de representatividade no governo executivo permanece um desafio a ser superado em consequência de barreiras estruturais da sociedade. 
Na Câmara da Capital, a quantidade de cadeiras ocupadas por negros saltou de uma para cinco, e por mulheres passou de quatro para 11 — o que representa quase um terço dos futuros vereadores no caso delas. Mas o cenário nos paços municipais permaneceu praticamente inalterado em comparação com a eleição de quatro anos atrás (veja detalhes no gráfico abaixo), conforme levantamento realizado por GZH nos 487 municípios com resultado oficial (cinco foram para segundo turno e outros cinco aguardavam julgamento da Justiça Eleitoral).
Nove em cada 10 novos gestores são brancos do sexo masculino. Desdobrando-se essas duas características, a pouca variedade fica mais evidente: os brancos somam 98%, enquanto os autodeclarados "pardos" ficaram com 1,6% das vagas no primeiro turno. Isso representa 12 vezes menos do que a proporção de um quinto de negros na população gaúcha. Em relação ao gênero, os homens somam 92,4% dos eleitos, embora representem metade da sociedade. 
Em nível nacional, a disparidade é um pouco menor: os futuros prefeitos são 67% brancos e 88% homens. Professor da Universidade de Brasília (UNB), o cientista político Ricardo Caldas afirma que o perfil gaúcho segue o retrato do "candidato padrão" observado na maior parte do país apesar das particularidades de cada região. A predominância do conservadorismo e a falta de movimentos da sociedade civil mais articulados no Interior, segundo o especialista, ajudam a explicar a continuidade dessa representação. 
— É fácil explicar porque Porto Alegre teve mais afrodescendentes e mulheres (eleitos). Você já tem uma cultura maior de militância, de atuação dos movimentos da sociedade civil questionando o padrão tradicional do homem branco — destaca. 
Caldas avalia que esse movimento presente nas capitais e nas cidades maiores migra para o Interior, mas a passos lentos e sob maior resistência. O principal obstáculo, segundo o integrante da Coordenação Nacional do Movimento Negro Unificado e mestrando em Direito Gleidson Renato Martins Dias, é que que o racismo estrutural limita o lançamento de candidaturas. 
— A estética e a cultura gaúchas ainda estão muito atreladas aos brancos. Outro problema é que os partidos ainda veem os negros apenas como cabos eleitorais — observa Dias. 
As estatísticas oficiais confirmam essa avaliação: apenas 3% dos concorrentes a prefeituras no Estado eram negros. Coordenadora de Programas da ONG Themis (dedicada ao fortalecimento das mulheres), Renata Jardim avalia que mecanismos criados para estimular a pluralidade política no país, como a garantia de recursos compatíveis com as candidaturas negras ou cota de 30% para elas nos pleitos proporcionais, não vem surtindo o efeito desejado nas disputas majoritárias. 
— Não podemos nem culpar os eleitores. As mulheres mal conseguem se candidatar em razão das estruturas de poder dentro dos partidos. Além disso, quando se candidatam, costumam ser alvo de muita violência política e de xingamentos — acredita Renata. 
A integrante da Themis afirma que é importante ter representatividade porque um homem jamais conseguirá ter a mesma visão de mundo de uma mulher — o mesmo valendo para outras frações da população sub-representadas politicamente, como negros ou homossexuais. 
— A forma como vemos a sociedade, os projetos de lei que vamos defender, isso depende de como enxergamos o mundo. Por isso, representatividade é algo fundamental em uma democracia — sustenta Renata.
Em 2016, 11 negros foram eleitos prefeitos no Estado. Entre eles, apenas duas mulheres se declararam "preta" ou "parda": Cleni Paz (falecida em 2018), em Alegrete, e Tânia Terezinha da Silva, em Dois Irmãos. Tânia acredita que cabe a mulheres e negros buscar a ocupação de mais espaços na política, mas o foco, em sua avaliação, deve estar na apresentação de projetos e não no perfil pessoal. 

— Não acho que alguém deva votar em uma pessoa só pela cor ou pelo sexo. Tem de acreditar no trabalho realizado, nos projetos apresentados. Estamos em uma caminhada de crescimento da representatividade — analisa Tânia, que encerrará seu segundo mandato no final do ano e não dará lugar a outra gestora com suas características no Rio Grande do Sul. 

Maior parte está na faixa dos 50 anos e tem curso superior
O retrato dos novos prefeitos gaúchos revela um processo de envelhecimento e um ligeiro avanço no nível educacional dos responsáveis por conduzir os municípios a partir do próximo ano (confira no gráfico a seguir).
Considerados apenas os resultados já oficializados do primeiro turno, a proporção de gestores até 30 anos recuou entre as duas últimas eleições municipais, enquanto o percentual de eleitos na faixa acima dos 60 anos se ampliou. Em 2016, 3,2% dos candidatos vitoriosos tinham até 30 anos, e 16% tinham mais de 60 anos. Agora, essas proporções variaram para 2% entre os mais jovens e 19% entre os mais velhos.

Essa variação pode indicar uma menor disposição dos jovens em participar diretamente da política no Executivo, ou uma maior pendência do eleitorado em favorecer concorrentes mais experientes.

Além da idade, aumentou também a escolaridade de quem vai comandar a maior parte dos municípios: a quantidade de eleitos com curso superior completo cresceu de 48% para 54%. Apenas quatro novos prefeitos indicaram não ter qualquer nível de educação formal concluído, e se registraram no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dizendo apenas saber ler e escrever.

A profissão mais comum informada é a de prefeito, embora nem todos os candidatos tenham colocado como atividade profissional o cargo político que ocupam. Em seguida aparecem empresário, agricultor e servidor municipal.

Fonte: GZH

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