A nona fase da Operação Compliance Zero, executada pela Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira (18), oficializou a condição de investigado de um político que já era citado desde o início do ano como possível envolvido: o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado. A investigação coletou indícios de que o parlamentar baiano teria recebido vantagens indevidas do grupo econômico do Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, em troca de suposta atuação política no Congresso.
A ofensiva reforça o caráter pluripartidário e de diversidade ideológica nas relações suspeitas de Vorcaro, que está preso preventivamente, sob suspeita de ter cometido crimes financeiros e de ter causado um rombo de cerca de R$ 50 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Confira abaixo quem são os principais políticos citados até o momento por possível envolvimento com Vorcaro e a teia econômica do Banco Master.
Nome ligado ao governo
Jaques Wagner (PT-BA)
É líder do governo no Senado e foi governador da Bahia entre 2007 e 2014. A investigação da PF diz ter reunido indícios de que Wagner recebeu vantagens indevidas em troca de atuação política no Congresso. O principal vínculo de Wagner seria com Augusto Lima, ex-sócio do Master, também alvo da Compliance Zero.
A decisão que autorizou o cumprimento de mandados de busca e apreensão nesta quinta-feira, do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), aponta a possibilidade de o senador ter recebido um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões. Também estão sob análise um suposto pagamento de R$ 3,5 milhões de uma empresa ligada a Lima ao núcleo familiar de Wagner, além de viagens em jatinhos e ingressos para shows no Exterior.
Para apontar a suposta atuação política do senador em favor do Master, a PF mencionou a tentativa de aprovação da emenda do senador Ciro Nogueira (PP-PI), que previa a ampliação da cobertura do FGC. A investigação aponta que o próprio Master teria redigido a emenda. A PF identificou que Augusto Lima enviou o link da emenda de Ciro para Wagner. Lima e o petista também teriam conversado sobre a tentativa de vender o Master para o Banco de Brasília (BRB), que acabou reprovada pelo Banco Central em setembro de 2025.
Até a publicação desta matéria, Wagner não havia se manifestado sobre a operação.
Nomes ligados à oposição
Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
Senador, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato à Presidência da República. A investigação da PF identificou que Flávio pediu R$ 134 milhões diretamente a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre a história de Jair. A quantia de R$ 61 milhões foi efetivamente paga por Vorcaro entre fevereiro e maio de 2025. Uma parte dos pagamentos foi feita através de um fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, que seria controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro. Em mensagens de telefone obtidas pela PF, Flávio e Vorcaro se chamam mutuamente de “irmão”.
Em 16 de novembro de 2025, véspera da primeira prisão de Vorcaro, Flávio mandou nova mensagem ao então banqueiro pedindo “uma luz” sobre mais repasses de dinheiro e afirmou: “Estou e estarei contigo sempre”.
Flávio admitiu que se reuniu com Vorcaro em novembro de 2025, na casa do ex-banqueiro, após ele ser libertado do primeiro episódio de prisão. O senador diz que fez isso para “botar um ponto final nessa história” do financiamento. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, declarou que Flávio visitou Vorcaro para “ver se conseguia o restante do dinheiro”.
Ciro Nogueira (PP-PI)
Senador e presidente do PP. De origem no Centrão, acumulou poder na reta final do governo de Jair Bolsonaro, quando exerceu a função de chefe da Casa Civil. A Compliance Zero apontou que Ciro recebia mesadas mensais de Vorcaro que variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil. Entre 2024 e 2025, diz a PF, os pagamentos teriam somado cerca de R$ 6 milhões, além da aquisição de participação societária em empresa e do custeio de gastos em restaurantes e viagens internacionais.
Em troca das supostas vantagens ilícitas, Ciro atuaria em defesa dos interesses de Vorcaro no Congresso. O caso mais notório, segundo a investigação, foi uma emenda, protocolada por Ciro, que pretendia ampliar o Fundo Garantidor de Créditos, mecanismo que protege correntistas e investidores de situações de quebra de instituições financeiras. Isso poderia permitir ao Master ampliar suas operações financeiras.
No dia 7 de maio, a defesa de Ciro Nogueira negou o recebimento de pagamentos e classificou os mandados de busca e apreensão como "medidas invasivas", baseadas "naquilo que constava no celular de terceiros".
Cláudio Castro (PL-RJ)
Governador do Rio de Janeiro até 23 de março de 2026, quando renunciou. As investigações apontam a possibilidade de Castro ter atuado para facilitar aportes de R$ 3,7 bilhões do Rioprevidência no Banco Master. O dinheiro do Rioprevidência, que custeia o pagamento de aposentadorias e pensões no Rio, foi colocado em fundos e letras financeiras do Master. Parte do valor aportado não era coberto pelo FGC, o que pode levar a perda do valor aplicado. Pelo suposto favorecimento, Vorcaro teria bancado viagens de Castro. Em uma dessas situações, o ex-banqueiro teria custeado um jantar de mais de R$ 60 mil em Nova York, em maio de 2023.
No dia 26 de maio, a defesa do ex-governador negou "qualquer relação pessoal indevida entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro. Os contatos entre ambos aconteceram em agendas oficiais, institucionais e também em encontros sociais e de networking, comuns ao exercício da função pública e à relação com representantes do setor empresarial, sem qualquer tratativa ilícita, favorecimento ou recebimento de benefício pessoal."
Nomes ligados ao Centrão
Antonio Rueda
Presidente do União Brasil, confirmou que prestou serviços de advocacia ao Banco Master, mas os valores não vieram a público. Em nota, Rueda disse que seu escritório fez “dezenas de pareceres e centenas de reuniões, incluindo mais de 1.000 audiências, cerca de 20 mil protocolos e aproximadamente 400 acordos”.
Ibaneis Rocha (MDB-DF)
Governador do Distrito Federal até 28 de março, quando renunciou com a intenção de concorrer ao Senado. É citado no contexto das negociações de compra do Banco Master, já em erosão financeira, pelo Banco de Brasília (BRB), vinculado ao governo do Distrito Federal. Ibaneis teria mantido encontros com Vorcaro para tratar da negociação. Eventuais motivações e legalidade das tratativas estão sob suspeita. A compra do Master pelo BRB não aconteceu, mas o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa foi preso pela Compliance Zero pela suspeita de não seguir boas práticas de governança e permitir negócios financeiros sem lastro com o Master. Costa teria feito um acordo com Vorcaro para receber propina através de seis imóveis avaliados em R$ 146 milhões.
Em entrevista à CNN, Ibaneis Rocha admitiu encontros com Vorcaro, mas afirmou que não discutiu a possível compra do Master pelo BRB.
Hugo Motta (Republicanos-PB)
Presidente da Câmara, admitiu ter viajado a Portugal em um jato de Vorcaro, a convite de Ciro Nogueira. Motta disse que o ex-banqueiro pagou diárias de sua hospedagem em um hotel de luxo em Lisboa. A viagem aconteceu em 2024. Os fatos são citados em relatório da PF na Operação Compliance Zero.
Davi Alcolumbre (União-AP)
Presidente do Senado, usou a tribuna nesta terça-feira (16) para rebater a revista Veja. Segundo a publicação, uma proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro conteria a informação de que o ex-banqueiro teria pago US$ 30 milhões a Alcolumbre em conta no Exterior.
— Eu repudio, com toda a firmeza e com toda a indignação, o conteúdo desta matéria. São alegações inteiramente falsas — afirmou o presidente do Senado.



























































